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Cecília Moura, Diretora do Serviço de Dermatologista do IPO Lisboa

“Um em cada dois homens e uma em cada três mulheres virão a ter cancro cutâneo“

A pele é o maior órgão do corpo humano e o cancro cutâneo constitui a forma mais frequente de neoplasia maligna: calcula-se que um em cada dois homens e uma em cada três mulheres virão a ter cancro cutâneo ao longo da vida.

 

A pele é um órgão complexo e existem inúmeros tumores cutâneos benignos e malignos, sendo os benignos bem mais frequentes que os malignos.

 

Desde a década de 60 do século passado que a incidência do cancro cutâneo tem vindo a aumentar nos países com população predominante de raça branca. Este aumento tem sido atribuído à maior exposição solar recreativa da população. A exposição crónica ao sol, mantida ao longo dos anos, em pessoas com profissões exercidas ao ar livre (como o trabalhadores agrícolas ou marítimos) também é indutora de cancros. A imunossupressão crónica (doentes com VIH/sida, doenças autoimunes e transplantados) contribui para o aumento da incidência das neoplasias, inclusive das cutâneas, sendo mais frequentes nessa população o carcinoma espinocelular mais agressivo/metastático, o melanoma e o carcinoma de células de Merkel.

 

A exposição a fontes artificiais de radiação ultravioleta, como os solários, também é indutora de neoplasias malignas cutâneas. Alguns medicamentos, dos quais são exemplo as novas moléculas inibidoras das vias de sinalização intracelular utilizadas para tratar doença oncológica avançada e metastática, também contribuem para o desenvolvimento de segundos cancros.

 

Na prática clínica diária, os tumores malignos mais frequentes da pele são o carcinoma basocelular, seguindo-se o carcinoma espinocelular e o melanoma.

 

O carcinoma basocelular é o tumor maligno mais frequente, mas o melanoma é o tumor cutâneo mais temido porque, embora curável se detetado precocemente, é responsável por elevada mortalidade em estádios mais avançados.

 

Embora os tumores epiteliais como os carcinomas basocelular e o espinocelular sejam frequentes, a sua mortalidade é baixa. No entanto, podem ter morbilidade significativa, quer pelo comportamento local destrutivo do tumor, quer pelas sequelas dos tratamentos efetuados.

O melanoma é o tumor maligno mais temido da pele e, nos últimos 30 anos, a sua incidência quadruplicou. Neste momento, a sua incidência parece estabilizar nalguns países, particularmente nos grupos etários mais jovens (homens entre 40/49 anos), mas continua a aumentar no grupo dos homens acima dos 50 anos.

 

A exposição solar tem sido apontada como o fator que está na origem da maioria dos melanomas cutâneos, particularmente a exposição intensa e intermitente, por curtos períodos, e sobretudo quando associada a queimaduras solares sofridas na infância e adolescência.

 

A exposição contínua e prolongada à radiação solar também induz melanomas cutâneos em áreas fotoexpostas. Sendo o dano causado cumulativo, é por isso mais frequente na população mais idosa.

Não sendo comuns em Portugal, as fontes artificiais de radiação, como as lâmpadas de bronzeamento ou os solários, são igualmente oncogénicas.

 

O melanoma é o principal responsável pela mortalidade atribuível a cancro cutâneo. Nas fases iniciais é, habitualmente, um tumor curável pela cirurgia adequada. Mas nas fases avançadas requer abordagem multidisciplinar e múltiplos tratamentos cirúrgicos e médicos, dispendiosos e nem sempre bem-sucedidos.

 

O papel do dermatologista no diagnóstico e tratamento destes doentes é fundamental, tanto na prevenção primária como na prevenção secundária. O dermatologista tem uma acuidade diagnóstica apurada para os tumores cutâneos, o que lhe permite um diagnóstico precoce destes tumores. Também domina numerosas técnicas de cirurgia convencional ou ablativas que permitem tratar e curar quer as lesões precursoras de cancro, quer os tumores malignos. Finalmente, está preparado para a reabilitação funcional destes doentes, minimizando as sequelas ou tratando atempadamente os efeitos secundários dos fármacos utilizados no controlo do cancro cutâneo avançado.