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22 de Novembro 2022

“Um nódulo no testículo é sempre suspeito”

Raquel João, médica urologista no IPO Lisboa e coordenadora do Centro de Referência do Cancro do Testículo fala deste e de outros tumores do homem.

IPO – O cancro do testículo não é o mais frequente nos homens, mas é preocupante. Pode explicar porquê?
Raquel João (RJ) – Não é o mais frequente na população masculina em geral, mas é o tumor mais frequente nos homens entre os 20 e 40 anos e o segundo mais frequente nos jovens entre os 15 e os 19 anos, logo depois das leucemias. Aos 15 anos, ninguém pensa que vai ter um tumor, daí a importância de informar para esta situação.

 

 

IPO – Quais os sinais e sintomas de alerta?
RJ – O mais comum é aparecer um nódulo pequeno e sólido no testículo, que se sente à palpação e cresce de forma rápida. Pode ser acompanhado de dor aguda, mas na maioria dos casos não apresenta quaisquer outros sintomas.

 

 

IPO – Então o que devem os homens fazer?
RJ – Tal como as mulheres fazem palpação da mama, os homens, principalmente os de idades mais jovens, devem fazer uma palpação regular do testículo uma vez por mês. Aconselhamos que o façam no banho, quando os músculos ficam mais relaxados, e se sentirem alguma alteração devem procurar um médico.

Raquel João, médica urologista no IPO Lisboa e coordenadora do Centro de Referência do Cancro do Testículo 

IPO – O médico assistente, de medicina geral e familiar?
RJ – Sim. O médico de família deverá mandar realizar uma ecografia do escroto e eventualmente análises com marcadores tumorais para o tumor do testículo (que nem sempre se encontram alterados).

“O tumor do testículo é o mais frequente nos homens
entre os 20 e 40 anos e o segundo mais frequente nos jovens
entre os 15 e os 19 anos, logo depois das leucemias.”

IPO – E quando é que se deve referenciar a uma consulta de urologia?
RJ – Dado que a maioria dos tumores do testículo têm um crescimento muito rápido, é importante que se façam os exames necessários com celeridade. No IPO Lisboa, os homens referenciados por tumor ou suspeita de tumor do testículo têm prioridade e a primeira consulta é marcada na própria semana. O ideal seria que já trouxessem uma ecografia, que permite perceber se se trata mesmo de um nódulo do testículo ou de alterações em outras estruturas envolventes.

IPO – O cancro do testículo é raro mas o número de novos casos tem vindo a aumentar. Porquê?
RJ – Nos últimos 30 anos, o número de novos casos diagnosticados duplicou – nos países ocidentais, registam-se três a dez novos casos por ano por cada cem mil homens. Não sabemos o porquê deste crescimento, mas terá certamente a ver com melhores condições de diagnóstico. É um tumor que se manifesta sobretudo em homens caucasianos e nos países desenvolvidos.

 

IPO – Há fatores de risco conhecidos para o tumor do testículo?
RJ – Não há uma relação de causalidade com o estilo de vida, mas são conhecidos alguns fatores de risco. Sabemos, por exemplo, que as crianças em que o testículo não desceu completamente até à bolsa têm maior risco de vir a desenvolver. O mesmo para quem tem familiares em primeiro grau (pai ou irmão) com a doença.

Tumor de evolução rápida

IPO – Disse que um nódulo do testículo é sempre suspeito e que deve ser investigado rapidamente. Porquê?
RJ – O tumor do testículo é de evolução rápida. Quanto mais cedo for diagnosticado, menos agressivo será o tratamento.

 

IPO – Como é que se trata?
RJ – A abordagem é sempre cirúrgica, temos sempre de remover o testículo que tem o tumor. É uma cirurgia simples, com uma pequena incisão. E para confirmar que é mesmo tumor, faz-se uma biópsia ainda no bloco operatório. Se se confirmar, remove-se o testículo e se o doente desejar coloca-se uma prótese de silicone no local, que permite minimizar as alterações estéticas decorrentes da cirurgia.

 

IPO – Se a doença estiver localizada, o tratamento resume-se à cirurgia?
RJ – Nalguns casos sim, mas depende sempre da informação da histologia. Mesmo que o tumor seja pequeno e se encontre localizado, pode haver necessidade de realizar quimioterapia para diminuir a probabilidade de ocorrer uma recidiva.

IPO – E se houver doença à distância?
RJ – Faz-se quimioterapia. O esquema de quimioterapia depende das características do tumor (seminoma ou não seminoma) e do estadiamento da doença. O seminoma tem melhor prognóstico, mas, no geral, a resposta ao tratamento é boa, exceto nalgumas situações em que os doentes são diagnosticados com doença já muito avançada.

“No IPO Lisboa, os homens referenciados por tumor
ou suspeita de tumor do testículo têm prioridade e a
primeira consulta é marcada na própria semana.”

IPO – O IPO Lisboa é Centro de Referência para o cancro do testículo. Qual a importância de tratar estes doentes em hospitais tão diferenciados?
RJ – Numa primeira fase, a cirurgia que fazemos no cancro do testículo pode ser realizada em qualquer hospital com serviço de urologia. Mas nos casos em que a doença é mais agressiva ou mais avançada os doentes devem ser referenciados para unidades com mais conhecimento e experiência. Por exemplo, se após a quimioterapia percebermos que existe doença residual é necessário fazer uma cirurgia para remoção dos gânglios do retroperitoneu, que é complexa e deve ser realizada em centros com experiência.

 

IPO – Tratando-se de um tumor que afeta homens em idade jovem, como se acautela a fertilidade?
RJ – Se o tumor afetar apena um testículo e o tratamento for apenas cirúrgico, a fertilidade mantém-se. Nos casos em que há necessidade de fazer quimioterapia, se o doente desejar, faz-se criopreservação de esperma. Geralmente, os doentes que não têm filhos optam por o fazer.

Outros tumores do homem

IPO – Ao contrário do tumor do testículo que é raro e manifesta-se sobretudo em homens jovens, o cancro da próstata é o mais frequente nos homens e geralmente surge em idades tardias. O que é que ainda precisamos de saber sobre este tumor?
RJ – Primeiro dizer que os sintomas urinários que surgem a partir de determinada idade (urinar mais vezes, ter um jato mais fraco, ter mais dificuldade em iniciar a micção, perder umas gotas de urina) na grande maioria das vezes não têm qualquer relação com cancro da próstata. Resulta da chamada hiperplasia benigna da próstata, que aumenta com a idade. A maioria dos tumores da próstata são diagnosticados antes de manifestarem quaisquer sintomas.

 

“O tratamento do cancro do testículo é sempre
cirúrgico e pode haver a necessidade de realizar
quimioterapia para diminuir a probabilidade de recidiva.”

IPO – E onde é que entra o PSA (antigénio específico da próstata)?
RJ – O PSA é uma glicoproteína produzida pela próstata e quando está aumentado pode não ser sinónimo de cancro da próstata. O PSA pode estar elevado devido a uma inflamação da próstata, por infeção urinária, após um toque retal, entre outras razões. Mas também tem grande relevância na avaliação clínica do tumor da próstata.

IPO – Essa informação deixa os homens um pouco baralhados…
RJ –
Como referi, o valor do PSA pode estar aumentado em várias situações benignas bem como em casos de doença maligna. Quando se encontra aumentado, o médico deve avaliar a probabilidade de existir tumor da próstata. De qualquer forma, recomenda-se a pesquisa do PSA a partir dos 50 anos ou dos 45 se existir história familiar de cancro da próstata. Por outro lado, este assunto deve ser discutido com os homens, pois pedir o PSA pode levar-nos ao diagnóstico de tumores que seriam indolentes.


IPO – Como é que se faz o diagnóstico?

RJ – Quando há suspeita de tumor maligno da próstata, o diagnóstico é realizado através de uma biópsia prostática. Esta biópsia permite retirar vários fragmentos de tecido prostático, de forma a confirmar ou excluir o diagnóstico de tumor maligno.

 

Os tumores da próstata não são todos iguais, certo?
RJ – O tumor da próstata tem um espectro muito grande, desde os tumores de muito baixo risco até aos tumores de alto risco e disseminados. De acordo com o valor do PSA e o resultado da biópsia, poderá ser necessário realizar exames de estadiamento: ressonância magnética, TAC e cintigrafia óssea. Cada doente deve ser avaliado de forma individual e, após a realização dos exames necessários, devem ser discutidas as opções terapêuticas.

IPO – Quais os tratamentos disponíveis?
RJ – O tratamento deve ser adequado a cada situação e a cada doente, com quem devem ser discutidas as opções terapêuticas. O tratamento com intenção curativa pode passar pela realização de cirurgia (o que implica a remoção da próstata e das vesiculas seminais), de radioterapia ou de braquiterapia (colocação de sementes radioativas na próstata).
A hormonoterapia é utilizada para abrandar o crescimento do tumor através da diminuição da testosterona e, por vezes, é realizada em conjunto com a radioterapia. Tem ainda um papel importante quando a doença já se encontra disseminada, onde pode ser utilizada como tratamento único ou em conjunto com quimioterapia ou outros fármacos mais recentes.

“O valor do PSA pode estar aumentado em várias
situações benignas bem como em casos de
doença maligna. O médico deve avaliar a probabilidade
de existir tumor da próstata.”

IPO – No cancro da próstata fala-se muito em sobretratamento. Significa que há homens que são submetidos a cirurgia e outros tratamentos sem necessidade?
RJ – Sim, acontece. Quando temos um tumor de muito baixo risco, a sua progressão vai ocorrer muito lentamente e uma das formas de evitar o sobretratamento pode ser a vigilância ativa. No IPO Lisboa, temos vários doentes nesse programa. A ideia é vigiar o tumor e apenas tratar quando há evidência de progressão.

 

 

IPO – Não deve ser fácil saber que se tem um tumor e não fazer tratamento…
RJ – Sim, para a maioria das pessoas é difícil saberem que têm um tumor e não estão a ser tratadas. Temem que se desenvolva, que progrida. No caso da próstata, pode acontecer. Mas também pode nunca ocorrer. É muito importante explicar aos doentes, com pormenor e exatidão, quais os riscos e os benefícios dos programas de vigilância ativa. Todas as decisões comportam riscos.

 

IPO – O tratamento do cancro da próstata tem sempre como consequência a disfunção erétil?
RJ – Infelizmente, não há tratamentos perfeitos. Esse é um risco associado e elevado, sobretudo na cirurgia.

 

IPO – E quanto ao cancro do pénis?
RJ – É pouco frequente, mas aqui no IPO ainda vimos alguns. Está associado à infeção pelo vírus do papiloma humano, mas também a fimose, início precoce da atividade sexual e má higiene. É um tumor agressivo e quando diagnosticado com maiores dimensões implica uma intervenção cirúrgica com remoção parcial ou total do pénis.

“O tumor da bexiga ainda afeta mais os homens,
mas é uma realidade que está a mudar. Está muito
relacionado com o consumo de tabaco.”

IPO – E quanto ao cancro da bexiga? Também afeta mais homens do que mulheres?
RJ – Ainda afeta mais homens, mas é uma realidade que está a mudar. Os tumores da bexiga e do urotélio (tecido que reveste as vias urinárias, desde o rim até à bexiga e uma parte da uretra) está muito relacionado com o consumo de tabaco. Os componentes do tabaco são filtrados no rim, acumulam-se na bexiga e aumentam o risco de desenvolvimento de cancro da bexiga. Se uma pessoa urinar sangue deve procurar o médico assistente. É um sinal de alerta.

IPO – Os homens ainda têm vergonha de ir a uma consulta de urologia?
RJ – Essa realidade tem vindo a mudar. De qualquer forma, aqui no IPO, o problema não se prende tanto com a vergonha, mas sim com o receio do diagnóstico de uma doença maligna e dos tratamentos associados.

 

IPO – O IPO é um hospital muito acarinhado pelos doentes. O que nos diferencia?
RJ – Apesar da carga da doença, o IPO Lisboa é um hospital muito acolhedor para os doentes e os profissionais têm muita preocupação em responder às suas necessidades e preferências. E o facto de sermos um hospital que se dedica só à oncologia é outra mais valia para os doentes.

 

IPO – Mulheres urologistas eram uma raridade há alguns anos. Ainda há poucas especialistas?
RJ – Cada vez somos mais. Entram mais mulheres nas faculdades de medicina e a presença feminina já é marcante em todas as especialidades médicas. A urologia não é exceção.