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07 de Setembro 2022

“Trabalhar de consciência tranquila”

Miguel Magalhães, diretor do Serviço de Otorrinolaringologia, fala em entrevista sobre o trabalho desta especialidade tão abrangente no IPO Lisboa.

Cancro da boca, da laringe, da faringe, entre outros. Miguel Magalhães, médico e diretor do Serviço de Otorrinolaringologia do IPO Lisboa, explica a complexidade da cirurgia numa região que envolve funções tão nobres como a fala, a alimentação, a respiração e a audição. Dos tratamentos à reabilitação, da enfermagem ao apoio psicossocial, são muitos os profissionais e serviços que trabalham com os doentes e as suas famílias. Assim é o IPO.

IPO – O que diferencia o Serviço de Otorrinolaringologia (ORL) do IPO Lisboa?
Miguel Magalhães (MM) – Primeiro dizer que a otorrinolaringologia (ORL) é uma especialidade muito ampla, que abarca a patologia de uma região anatómica com diversos órgãos e funções, que têm várias interligações entre si e repercussões a nível funcional, social, estético. Somos uma disciplina médico-cirúrgica que, além da sua área de intervenção (otologia, rinologia, cirurgia estética e facial e cirurgia da cabeça e pescoço), colabora com outras áreas da medicina.

 

IPO – E no IPO Lisboa, na área de intervenção da ORL, quais os tumores mais frequentes?
MM – O Serviço de ORL do IPO dedica-se ao tratamento do cancro da cabeça e pescoço, prioritariamente aos cancros da laringe (o que tem maior prevalência nesta área), da cavidade oral, da hipofaringe, da nasofaringe, dos seios perinasais, das glândulas salivares e tiroideia e ainda aos tumores ouvido, que são mais raros. A atividade do Serviço é global. Na área médica damos apoio e suporte aos doentes de todos os serviços, incluindo a pediatria. Na área cirúrgica, colaboramos – e pedimos colaboração – a todas as especialidades fronteira, designadamente neurocirurgia, cirurgia vascular, cirurgia geral, plástica e maxilofacial.

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Miguel Magalhães, médico otorrinolaringologista. Entrou no IPO 1980 e é diretor do Serviço de Otorrinolaringologia desde 2010.

IPO – Uma intervenção cirúrgica em tumores que se localizam em locais tão sensíveis pode afetar várias funcionalidades, como a fala, a alimentação, a audição, etc. Como é que se reduzem possíveis sequelas?
MM – Nos nossos doentes, o tumor envolve sempre vários órgãos e funções. Para operar uma laringe, não posso pensar só na laringe. Tenho de remover o tumor e resolver o problema do pescoço, da deglutição, da fala, da respiração; tenho de me preocupar com o aspeto estético, com a inserção social, profissional e familiar da pessoa. Tudo isto está interligado, o que requer um conhecimento global e integrado da fisiologia, anatomia e patologia dos órgãos que se localizam nesta região. No Serviço de ORL podemos tratar qualquer doente com cancro da cabeça e pescoço, mas acabamos por tratar sobretudo os doentes com patologias que não podem ser tratadas noutros centros e doentes que foram tratados noutros hospitais e que nos são enviados por complicações pós-cirúrgicas.

“Os principais fatores que estão na origem dos tumores da cabeça e pescoço, principalmente boca, laringe, faringe e também esófago, são o consumo de tabaco e de álcool.”

IPO – Em regra, na área da oncologia, antes ou depois da cirurgia é necessário fazer outros tratamentos. Pode explicar essa abordagem?
MM – O esteio do tratamento do cancro é precisamente a muldisciplinaridade. Na maioria dos casos, a cirurgia, só por si, não trata o cancro, os doentes precisam de tratamentos combinados de cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia. São estas modalidades terapêuticas que, em conjunto, permitem oferecer os melhores resultados. É assim que trabalhamos no IPO.

IPO – Na área da ORL os doentes continuam a ser diagnosticados em fases muitos avançadas da doença oncológica? Se sim, porquê?
MM – Os dois principais fatores que estão na origem dos tumores da cabeça e pescoço, principalmente boca, laringe, faringe e também esófago, são o consumo de tabaco e de álcool, sobretudo quando associados e consumidos durante longos períodos. Estes comportamentos são mais frequentes em indivíduos que têm famílias disruptivas ou que vivem isolados, com dificuldades socioeconómicas e baixa escolaridade. Estas pessoas, menos informadas e com menos suporte, têm tendência a ignorar os sintomas durante muito tempo e, geralmente, quando procuram o médico as doenças já estão em estadios muito avançados.

IPO – E o vírus do papiloma humano (VPH)? Também está na origem de algum tumores da cavidade oral.
MM – As infeções pelo VPH têm vindo a ganhar relevância e são fator de risco para o cancro da orofaringe (amígdalas e amígdala lingual). Em Portugal, o número de casos tem vindo a aumentar gradualmente, mas os tumores associados ao consumo de tabaco e álcool ainda são dominantes. Em países mais desenvolvidos do que o nosso, onde já se consome menos tabaco e álcool, o cancro associado ao VPH tem maior incidência.

 

IPO – Os tumores da boca e cavidade oral continuam a ser mais frequentes nos homens do que nas mulheres?
MM – Em Portugal, a incidência e a prevalência ainda são mais elevadas nos homens. Mas devido ao aumento do consumo de tabaco entre as mulheres nos últimos 30 anos, o número de novos de casos na população feminina está a aumentar. No caso dos tumores associados ao VPH não há grande diferença entre sexos, mas, no entanto, afeta mais os homens.

 

IPO – Há muitos tumores que se desenvolvem lenta e silenciosamente durante anos, sem que manifestem quaisquer sintomas. Nesta área também é assim?
MM – Não, geralmente os tumores da via aerodigestiva superior têm uma evolução muito mais rápida do que outras doenças oncológicas e, a partir de determinada altura, progridem mesmo muito rapidamente, têm um crescimento exponencial. Esta é uma das razões que faz com que estes tumores tenham prioridade no tratamento.

Fatores de risco, sintomas e tratamentos

IPO – Além da prevenção, a que sinais e sintomas devem as pessoas estar atentas?
MM – Os sintomas são idênticos aos de uma infeção viral banal. Podem manifestar-se com uma rinorreia (corrimento nasal), dor garganta, adormecimento ou afta na língua ou na bochecha, sintomas que as pessoas tendem a desvalorizar. É fundamental dar atenção a sintomas dolorosos, feridas e aftas na boca, rouquidão e dificuldades em engolir que persistam para além de três semanas. Nestas situações as pessoas têm de ir ao médico e serem avaliadas.

IPO – Quanto mais cedo se diagnosticar e tratar maior a probabilidade de controlar a doença e de fazer tratamentos cirúrgicos menos invasivos, é isso?
MM – Até aos anos 70, 80 do século passado, o tratamento dos tumores da cabeça e pescoço era estritamente cirúrgico, com radioterapia complementar. Se os tumores eram pequenos, preservam-se as funções dos órgãos; se eram muito avançados a cirurgia era muito radical e deixava grandes sequelas funcionais e estéticas. Em alternativa à cirurgia, mas com resultados equivalentes em termos de sobrevivência e qualidade de vida, nos últimos 20, 30 anos registaram-se grandes avanços na oncologia médica e na radioterapia, o que permite tratar muitos doentes preservando-lhes a fala e outras funções. Fazer tratamentos cada vez menos agressivos é a linha de pensamento dominante.

“É fundamental dar atenção a sintomas dolorosos, feridas e aftas na boca, rouquidão e dificuldades em engolir que persistam para além de três semanas.”

IPO – Mas poder operar um tumor não é um bom sinal?
MM – Na cirurgia da cabeça e pescoço sim. Se o tumor já não for operável significa que a extensão local e as metástases à distância não permitem o controlo da doença.

 

IPO – As tecnologias na área da cirurgia também evoluíram muito.
MM – Claro que sim. Hoje usamos técnicas de cirurgia endoscópica, microscópica, robótica, sob navegação computorizada e de electromedicina que permitem alcançar melhores resultados e são menos agressivas e mutilantes para os doentes. Mas para isso, precisamos de ter os meios tecnológicos disponíveis.

 

IPO – Apesar de todos os progressos, muitos doentes ficam com sequelas resultantes dos tratamentos. O que é que se faz em termo de reabilitação?
MM – A reabilitação é fundamental e não se resume a dar autonomia às pessoas para conseguirem alimentar-se; têm também de continuar a falar, a ouvir e a ter uma aparência condigna. Os otorrinos do IPO têm o conhecimento e o treino para fazer reconstrução da faringe, da língua e da boca, etc., mantendo as funcionalidades dos órgãos. Mas dado o enorme volume de doentes e a complexidade dos casos que recebemos, trabalhamos em estreita colaboração com vários serviços, que são chamados sempre que percebemos que o doente beneficia da sua intervenção. Um desses serviços é a cirurgia plástica, fundamental para a reconstrução de certos órgãos, mantendo a sua funcionalidade e cuidando da estética, da imagem dos doentes.

IPO – E quanto à reabilitação após a cirurgia?
MM – No IPO, os doentes e a família têm apoio especializado de enfermagem, antes e depois da cirurgia; dos serviços de psiquiatria e psicologia sempre que necessário; de assistente social, que se coordena com os cuidados de proximidade; e do Serviço de Medicina Física e Reabilitação. A intervenção dos fisioterapeutas na reabilitação da fala é muito importante e está disponível no internamento e no ambulatório.

“Recebemos muitas cartas, e-mails, telefonemas e agradecimentos de pessoas que ficam reconhecidas por aquilo que o Serviço de ORL lhes proporciona.”

IPO – O Serviço de ORL recebe mais elogios ou reclamações?
MM – Recebemos muitas cartas, e-mails, telefonemas e agradecimentos de pessoas que ficam reconhecidas por aquilo que o Serviço lhes proporciona. Temos uma boa resposta para marcação de consulta e temos conseguido manter uma boa resposta na realização das cirurgias, embora gostássemos que fosse ainda mais célere. As reclamações têm mais a ver com instalações, processos administrativos e atrasos na prestação de cuidados e realização de exames. Mas as reclamações que para mim são mais delicadas, embora pontuais, são aquelas em que os familiares que perdem o seu ente querido ficam com a perceção de que a atuação médica poderá não ter sido a mais correta. Isso é que me leva a um maior empenho para que as consciências se possam tranquilizar.

IPO – O médico deve pôr-se no lugar do doente?
MM – Quando estou a exercer medicina não o posso fazer, tenho de preservar a relação médico-doente, que é a única que nos permite executar atos médicos e auxiliar uma pessoa. Trata-se de uma relação que não pode ser alterada por fatores de paternalismo, religiosos, étnicos ou quaisquer outros. Mas quando paro para refletir tento pôr-me no lugar do doente.

 

IPO – O que gostaria que melhorasse no IPO?
MM – Os espaços físicos, o número de recursos humanos, o investimento em equipamento tecnológico. Por exemplo, a cirurgia robótica. Para a ORL tem uma utilidade muito restrita, mas é um instrumento cirúrgico que permite ganhos enormes no tratamento do cancro na urologia, ginecologia e cirurgia geral. O IPO é um hospital de última linha no tratamento do cancro. Devíamos ter capacidade para resolver todos os problemas, sem andar a enviar doentes para outros hospitais.