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28 de Setembro 2023

Setembro Dourado: o desafio do cancro pediátrico

Ana Lacerda, diretora do Serviço de Pediatria, destaca a importância do reconhecimento do mês dedicado à oncologia pediátrica. E de todo o trabalho do Serviço, ao longo de todos os meses do ano. Em nome das crianças e jovens.

Em setembro, por todo o mundo, é comemorado anualmente o mês de reconhecimento do cancro pediátrico (‘Setembro dourado’ – #GoldSeptember).

 

Durante este mês, a comunidade internacional de oncologia pediátrica une-se em torno desta causa – mostrar que as crianças e jovens com cancro, e as suas famílias, são importantes para todos nós, e que é por elas que estamos aqui todos os dias do ano.

 

Em 2023, a campanha focou-se no impacto, a longo prazo, do cancro pediátrico e dos seus tratamentos.

 

Com efeito, embora hoje em dia a taxa de sobrevivência global nos países desenvolvidos como o nosso seja, no geral, de cerca de 80%, a probabilidade de um sobrevivente apresentar efeitos secundários do tratamento é também bastante elevada.

 

Claro que estes efeitos são variáveis na sua natureza e na sua gravidade, podendo surgir ainda durante o tratamento ativo da doença, ou muitos anos (até mesmo décadas) mais tarde. Tudo depende da conjugação de vários fatores: a idade da criança na altura do diagnóstico, o tipo de cancro, o tratamento utilizado e as suas doses.

Comunidade oncologia pediátrica une-se em torno desta causa – mostrar que as crianças e jovens com cancro, e as suas famílias, são importantes

No Departamento de Oncologia da Criança e do Adolescente do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa) temos, desde 2007, um projeto pioneiro e ímpar no país – a consulta dos DUROS (Doentes que Ultrapassaram a Realidade Oncológica com Sucesso). São hoje acompanhadas cerca de mil crianças e jovens que terminaram o tratamento há mais de cinco anos.

 

Destes, cerca de dois terços apresentam algum tipo de sequelas, sendo as mais frequentes as de natureza psicológica (em especial o stress pós-traumático e as perturbações de ansiedade) e os défices hormonais.

Este projeto extravasa a Pediatria, contando com a colaboração de vários outros serviços do Instituto, como a Endocrinologia, Dermatologia, Pneumologia, Neurologia e Oncologia Médica, bem como dos serviços de Cirurgia, e da equipa de enfermagem– valências complementares que valorizam a prestação de cuidados nesta multidisciplinaridade e o trabalho de uma grande equipa. Destaca-se ainda o apoio dado pela Unidade de Psicologia e pelo serviço de Psiquiatria.

As sequelas, no entanto, não se limitam aos domínios físico e mental e passam igualmente por problemas de reajuste social. Nas crianças e adolescentes salienta–se a adaptação ou readaptação escolar, e nos jovens adultos a integração laboral e o acesso a seguros de saúde e de vida. Em Portugal, a ACREDITAR (Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro) teve um papel fundamental na aprovação, em 2021, da lei que proíbe práticas discriminatórias a quem sofreu de doença grave.

 

Os nossos sobreviventes recordam-nos também, todos os dias, o quão importante é estarmos ativos em grupos de trabalho e na investigação internacional.

Os nossos sobreviventes recordam-nos quão importante é estarmos ativos em grupos de trabalho e na investigação internacional

Sendo uma doença rara, o conhecimento sobre cancro pediátrico requer juntar a experiência de muitos centros e a participação em grupos de peritos e reuniões internacionais. Só assim conseguimos melhorar resultados e oferecer às nossas crianças e jovens tratamentos inovadores, como a imunoterapia (caso dos anticorpos monoclonais) e as terapias celulares, como as células CAR-T, que começaram a ser utilizadas na Pediatria do IPO Lisboa – e pela primeira vez em Portugal em contexto pediátrico – no final de 2022.

 

No entanto, novos tratamentos trazem novos desafios, como o desconhecimento sobre potenciais efeitos tardios, pelo que o acompanhamento dos sobreviventes de cancro pediátrico será cada vez mais relevante.

 

No que nos toca a nós, na Pediatria, podem contar connosco! Para muitos meses dourados, ao longo de todo o ano, na vida de todas as nossas crianças e jovens.

Ana Lacerda

Diretora do Serviço de Pediatria do IPO Lisboa