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31 de Janeiro 2024

Reabilitação: Em busca de maior qualidade de vida

A doença e os tratamentos podem trazer algumas limitações ou sequelas à vida dos doentes oncológicos. A equipa multidisciplinar do Serviço de Medicina Física e Reabilitação é fundamental para os ajudar na sua reabilitação.

“O trabalho que aqui é feito é muito importante e valioso para a nossa recuperação. Comecei a ser acompanhada ainda no internamento, após a cirurgia, onde me ensinaram alguns exercícios para fazer em casa, até iniciar os tratamentos, o que aconteceu seis semanas após a cirurgia”, lembra Marta Fonseca sobre a rotina de tratamentos que realiza no serviço de Medicina Física e Reabilitação (MFR) do IPO Lisboa. É acompanhada desde novembro de 2022, após lhe ter sido diagnosticado um cancro de mama. As sessões começaram por ser individuais e depois passaram a realizar-se em grupo, mas “notei logo uma grande melhoria após a primeira sessão, com uma diminuição das dores e maior facilidade em movimentar o braço”, salienta a doente que terminou recentemente os tratamentos.

A recuperação dos doentes oncológicos, de forma a assegurar a melhor reabilitação física, familiar, social e laboral, para que possam recuperar as suas rotinas e com qualidade de vida, é mesmo o foco do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do IPO Lisboa. O apoio e orientação aos doentes é realizado tanto em ambulatório como em internamento, por uma equipa multidisciplinar que trabalha para ajudar a prevenir ou a tratar as sequelas da doença e/ou dos tratamentos e cirurgias. Anualmente, o serviço acompanha cerca de 6.000 doentes em ambulatório e 1.800 em internamento.

“O aumento da incidência da doença oncológica, mas também da taxa de sobrevivência que deriva dos avanços da medicina, tem demonstrado que a Medicina Física e Reabilitação assume, cada vez mais, um papel de destaque em todo o processo. Se antigamente o doente queria apenas sobreviver, hoje em dia, quer sobreviver com qualidade de vida. Para isso, temos de ajudá-lo a retomar a sua vida normal”, explica Teresa Amaral, médica fisiatra e diretora do Serviço de Medicina Física e Reabilitação. Ao médico fisiatra compete a avaliação da situação do doente e a prescrição dos tratamentos adequados a cada um; posteriormente, serão os terapeutas a prosseguir com o plano de exercícios.

Equipa multidisciplinar no apoio ao doente

 

Algumas complicações decorrentes de uma cirurgia ou tratamento podem ser precoces ou mais tardias, mas afetam sempre a qualidade de vida do doente e implicam que se adapte a uma nova realidade. O apoio da MFR é providenciado em todas as especialidades, mas são os doentes com cancros de mama e da cabeça e do pescoço que mais recorrem a este serviço.

O conhecimento que o fisioterapeuta tem da doença oncológica e dos tratamentos é fundamental. “O linfedema [inchaço do braço] é uma sequela frequente no cancro da mama e como já sabemos isso de antemão, podemos intervir precocemente a fim de minimizar ao máximo este problema. Este conhecimento é importante para o nosso trabalho, tal como toda a colaboração da equipa multidisciplinar em prol da recuperação funcional do doente”, explica o fisioterapeuta coordenador, Nuno Duarte.

 

Noutros casos, é a comunicação que fica afetada e aqui intervém o terapeuta da fala. “Os nossos doentes isolam-se muito se ficam com alterações na comunicação, linguagem, motricidade orofacial e deglutição. Temos de intervir e reabilitar esta área para que possam voltar a comunicar. O simples facto de poderem ter uma refeição em família ou até irem a um restaurante é muito importante para estes doentes. É necessário motivá-los para que consigamos alcançar os melhores resultados possíveis”, conta Raquel Sousa, terapeuta da fala.

“A pensar precisamente neste apoio multidisciplinar, o IPO Lisboa arrancará em breve mais um projeto de proximidade com os doentes e vai promover sessões de esclarecimento a doentes com Cancro da Mama que façam a biópsia do gânglio sentinela.”

Outro elemento chave desta equipa é o próprio doente. O seu empenho e determinação são fundamentais para alcançar bons resultados. Lúcia Ramos, doente do IPO Lisboa desde 2002, considera o Instituto uma segunda casa. “Só tenho a agradecer a todos os serviços por onde já passei, os profissionais são espetaculares e até costumo dizer que venho visitar os amigos”. Portadora de uma mutação genética, já passou por este serviço em duas situações: para recuperar de um cancro de mama e, mais recentemente, para tratar sequelas de um linfoma.

Passou por uma cirurgia, um internamento prolongado e algumas complicações que a deixaram sem andar e com dificuldades respiratórias que a levaram a uma traqueostomia. “Tive de reaprender a falar, a respirar e a andar. Não foi fácil. Quando tive alta, não conseguia andar sozinha e até para ir à casa de banho, precisava de ajuda. Foi o trabalho diário e com o apoio destes profissionais consegui retomar a minha vida. Agora já consigo fazer as minhas atividades diárias, sem ajuda da minha família e isso é muito bom. Estes profissionais são uns ‘anjos’ e fazem um trabalho extraordinário connosco”.

O doente no centro do processo

 

A pensar precisamente neste apoio multidisciplinar, o IPO Lisboa arrancará em breve mais um projeto de proximidade com os doentes e vai promover sessões de esclarecimento a doentes com Cancro da Mama que façam a biópsia do gânglio sentinela, uma técnica cirúrgica de diagnóstico e orientação terapêutica que pode impactar na mobilidade dos membros superiores. “Serão sessões conduzidas por uma equipa com elementos dos serviços de Cirurgia Geral e de Medicina Física e Reabilitação – um cirurgião, um fisiatra e um fisioterapeuta – e são dirigidas a doentes que tenham este efetuado este procedimento. O objetivo é envolver o utente no percurso da doença, transmitindo-lhe um conhecimento prévio que o tranquilize e ajude no processo”, concretiza Teresa Amaral. As sessões de esclarecimento estão agendadas para dias 26 de fevereiro, 25 de março e 22 de abril).

“Se antigamente o doente queria apenas sobreviver, hoje em dia, quer sobreviver com qualidade de vida. Para isso, temos de ajudá-lo a retomar a sua vida normal”