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13 de Maio 2022

Rastreio ao cancro da pele no IPO Lisboa

Serviço de Dermatologia observa utentes a 18 de maio, no âmbito do Dia do Euromelanoma. Inscrições podem ser feitas por email. Abertas 50 vagas.

A data de 18 de maio foi a escolhida este ano para assinalar o Dia do Euromelanoma, que pretende alertar para a prevenção primária e secundária do cancro cutâneo em geral, e do melanoma em particular.

 

O Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa), a exemplo dos anos anteriores, associa-se à iniciativa, através da divulgação dos fatores de risco para o cancro cutâneo e da realização de rastreio presencial no Serviço de Dermatologia​.​

 

“Não se pretende rastrear toda a população, mas algumas pessoas de maior risco. Pessoas de pele clara, com muitas sardas, olhos claros, que tiveram queimaduras solares principalmente na infância e adolescência, com exposição solar prolongada e ocupacional ao sol, com muitos nevos melanocíticos (termo médico para mancha, ou sinal pigmentado) ou que têm história de cancro de pele na família”, explica a médica Cecília Moura, diretora do Serviço de Dermatologia do IPO Lisboa.

 

O rastreio vai decorrer em vários hospitais, públicos e privados, e em consultórios de dermatologistas, numa parceria que envolve a Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo e a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. No IPO Lisboa, as marcações podem ser feitas através do email dermatologia@ipolisboa.min-saude.pt​. Serão abertas 50 vagas. ​

Todos os anos são diagnosticados cerca de mil novos casos de melanoma cutâneo. São também diagnosticados outros cancros cutâneos mais frequentes na população em geral, como o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular. Pretende-se alertar a população para as regras de prevenção primária, que passam sobretudo pela exposição regrada ao sol e fotoprotecção, e alertar para os benefícios do autoexame da pele e sinais de alarme do cancro cutâneo. Características como ter a pele clara, com sardas, olhos claros e cabelos ruivos ou louros, idade superior a 50 anos, ter sofrido queimaduras solares durante a infância, antecedentes familiares de cancro da pele, utilização de solários, entre outros, são considerados fatores de risco.

 

Mesmo sem participar em rastreios, os especialistas aconselham a população a examinar a pele, pelo menos de dois em dois meses, além dos cuidados habituais a ter: evitar a exposição solar, usar roupa adequada, óculos de sol e chapéu e aplicar protetor solar. ​Os sinais suspeitos devem ser observados tendo em conta a “Regra do ABCDE”: Assimetria (crescem mais de um lado), Bordo (limites irregulares e esfumados), Cor (com diferentes tonalidades), Diâmetro (mais de 5 mm) e Evolução (alteração da forma, cor e tamanho em pouco tempo). Também as lesões cutâneas com características morfológicas diferentes das demais devem ser valorizadas – “sinal do patinho feio”.

 

“Queremos que as pessoas se habituem a verificar as lesões pigmentadas, e se notarem alguma alteração, comunicarem ao médico assistente. E que se habituem a fazer rastreio do cancro cutâneo, tal como os rastreios dos cancros da mama e do cólon”, sublinha a especialista.

 

Grupos de risco

 

Cecília Moura chama a atenção para as profissões que obrigam a uma exposição diária ao sol, como os trabalhadores da construção civil, agricultura e pescas. “O cancro profissional existe e deve ser considerado. Temos pessoas que trabalham de sol a sol”.

Os doentes transplantados e com imunossupressão também são considerados um grupo de risco, e devem ser vigiados. “Os doentes que fizeram radioterapia, transplantados renais, hepáticos, cardíacos, medulares, bem como doentes com imunossupressão, por algum motivo, ou que fizeram tratamentos oncológicos, também deviam estar regularmente a ser observados”.

 

Existem famílias com predisposição genética para desenvolver cancros de pele. As mutações genéticas que predispõem ao melanoma são raras mas têm muito impacto na oncogénese. Há doentes com mutações que predispõem sobretudo a melanoma, como as mutações nos genes CDKN2A, CDK4 e MITF. Mas há outras mutações, como, por exemplo, a mutação nos genes BRCA 2, mais conhecidos por poderem provocar cancro da mama e do ovário, também podem contribuir para o aparecimento de melanoma. Estes utentes são seguidos pelo Serviço de Dermatologia na Clínica de Risco Familiar​ do IPO Lisboa.

 

Além destes, o IPO Lisboa também tem vindo a receber uma nova categoria de doentes. São estrangeiros e vivem em regiões com muitas horas de Sol, como o Alentejo e o Algarve. “Temos muitos doentes ingleses, franceses, alemães, suecos, a residir no Algarve ou na zona do Oeste. Os cuidados que têm com o Sol são muito inferiores aos da população portuguesa, embora seja uma população de pele muito mais branca e muito mais suscetível a queimadura solar”, explica a médica. A grande maioria é idosa, com tumores avançados, “que têm até alguma dificuldade em vir às consultas porque moram longe”.

 

​Poucos profissionais no SNS

 

A dermatologia é uma das especialidades com mais falta de médicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS). No IPO Lisboa também se verifica esta carência. Atualmente o serviço dispõe apenas de três dermatologistas, duas delas a trabalhar a tempo parcial. Esta situação tem grande impacto na assistência dermatológica à população e em particular na área da Dermatologia Oncológica.

 

De acordo com Cecília Moura, “neste momento estão a ser pensadas outras maneiras de trabalhar no SNS de forma a colmatar a falta de profissionais em determinadas áreas. A dermatologia é uma área crítica. As dermatoses são muito frequentes na população em geral, o cancro de pele é o mais frequente nos indivíduos caucasianos, de pele mais clara. Seria bom que houvesse um quadro maior de dermatologistas no SNS”. “Os tumores começam pequenos. São cutâneos e com uma observação cuidada são diagnosticados e tratados facilmente. Se atrasarmos o diagnóstico e o tratamento podemos não ser tão eficazes e necessitamos de mais armas terapêuticas para o tratamento ser eficaz”, diz.

Na sua opinião, as razões que estão a afastar os médicos dermatologistas do SNS, como as ofertas dos hospitais privados e das instituições estrangeiras são várias. “Os novos dermatologistas são a geração melhor preparada. A formação é nos hospitais públicos, nos serviços de dermatologia, e a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e de Venereologia tem investido muito na formação e tem bolsas para a frequência de estágios no estrangeiro. Os que estão a sair do país fizeram estágios lá fora e têm contactos internacionais”. Por isso defende a necessidade de “os ouvir, e saber o que querem e o que pretendem, de forma a manter os recursos dentro do país. Acho que é fundamental e crítico”.

 

Por outro lado, também considera ser necessário cativar profissionais para a área específica da dermatologia oncológica. “Estamos a fazer uma reformulação do programa de internato”, no colégio da especialidade de Dermato-Venereologia da Ordem dos Médicos (do qual faz parte): “Espero influenciar os meus pares de forma a diferenciar mais pessoas na área da dermatologia oncológica”.