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31 de Outubro 2023

Porque é que em outubro se fala tanto do cancro da mama?

Catarina Rodrigues dos Santos, coordenadora da Clínica Multidisciplinar da Mama, relembra a importância do mês das campanhas de sensibilização para o rastreio e de homenagem aos sobreviventes de cancro de mama. E recupera a origem do laço cor-de-rosa como ícone do cancro da mama.

O movimento conhecido por ‘Outubro Rosa’ (Pink October) nasceu nos Estados Unidos da América, em Outubro de 1985, com o intuito mobilizar a sociedade para a luta contra o cancro da mama. Desde então, este é o mês eleito para campanhas de sensibilização para o rastreio e para homenagear sobreviventes de cancro de mama.

 

O primeiro evento foi uma colaboração entre a American Cancer Society e a divisão farmacêutica da Imperial Chemical Industries com o objetivo de promover a mamografia como a ferramenta mais eficaz na luta contra o cancro da mama.

A campanha teve particular impacto pelo envolvimento de Betty Ford, ex-primeira-dama e sobrevivente de cancro de mama. Betty Ford foi diagnosticada com cancro de mama enquanto seu marido, Gerald Ford, era presidente dos Estados Unidos. Foi submetida a uma mastectomia, em outubro de 1974, e expôs o seu caso publicamente para sensibilização para o diagnóstico precoce. Pensa-se que o seu envolvimento público tenha contribuído para um aumento do diagnóstico em 15%, nos Estados Unidos da América.

 

Para entender a origem do laço cor-de-rosa como símbolo, temos de recuar a 1979. Nessa data, Penney Laingen, esposa de um refém, no Irão, amarrou fitas amarelas nas árvores do jardim, como um sinal do seu desejo de ver o marido ser libertado. Pela primeira vez, a fita tornou-se mensagem.

Fitas amarelas sugiram por todo o país em solidariedade. Foi o primeiro passo. O segundo ocorreu 11 anos depois, quando os ativistas da luta contra a SIDA olharam para as fitas amarelas que tinham sido usadas para os soldados que lutaram na Guerra do Golfo e disseram: “Que tal algo para os nossos rapazes que morrem aqui em casa?” O grupo de arte ativista Visual AIDS usou uma fita vermelho brilhante – “porque é a cor da paixão” – e apresentou-a ao público durante os Tony Awards, colocada no peito do ator Jeremy Irons.

 

A fita começava a ser o símbolo das lutas por uma causa.

Em 1991, Charlotte Haley, também sobrevivente de cancro de mama, criou laços, feitos à mão, cor de pêssego, para homenagear a sua mãe, irmã e avó, todas vítimas de cancro de mama. Distribuiu conjuntos de cinco fitas com um cartão informando que o orçamento anual do National Cancer Institute nos EUA, “é de 1,8 mil milhões de dólares e apenas cinco por cento vão para a prevenção do cancro. Ajude-nos a acordar os nossos legisladores e a América usando esta fita”.

 

Na mesma data, a então editora-chefe da revista Self, Alexandra Penney, estava a preparar a segunda edição anual do Mês de Consciencialização sobre o Cancro de Mama da revista e ambicionava desenvolver uma campanha marcante. Ao saber da iniciativa de Charlotte Haley, terá oferecido apoio para a divulgação nacional da causa, através da revista e dos cosméticos Estée Lauder que seriam distribuídos com o símbolo do laço cor de pêssego. Mas Charlotte Halley recusou, invocando interesse comercial da revista e da marca.

 

Os conselheiros jurídicos da revista advogaram que, ao mudar a cor da fita, não era necessária permissão para usar a ideia de Charlotte Haley. Assim, nasceu o icónico rosa na fita laço-símbolo do Mês de Consciencialização do Cancro da mama, em 1992. Nesse outono, os balcões de maquilhagem da Estée Lauder distribuíram 1,5 milhão de fitas, cada uma acompanhada de um cartão descrevendo o autoexame da mama. Conseguiram mais de 200 mil petições, instando a Casa Branca a aumentar o financiamento para pesquisas em cancro da mama. Várias marcas se vieram associar à causa. Entre 1991 e 1996, o financiamento estatal americano para a investigação do cancro da mama aumentou quatro vezes, para mais de 550 milhões de dólares. E de acordo com a American Cancer Society, a percentagem de mulheres que realizam mamografias anualmente mais do que duplicou.

Desde então o laço cor-de-rosa tem servido de ícone do cancro de mama em campanhas de sensibilização, angariação de fundos e, claro, na comemoração do ‘Outubro Rosa’.

 

Polémicas à parte sobre a associação do símbolo a marcas comerciais, o ‘Outubro Rosa’ continua a ser a campainha necessária para relembrar a importância do rastreio e da evolução do tratamento do cancro da mama.

 

E porquê?

– Uma em cada oito mulheres será diagnosticada com cancro de mama, ao longo da sua vida. (*Fonte: Globocan)

– A morte por cancro de mama afeta desproporcionalmente aqueles que não têm acesso a cuidados de saúde. A taxa de sobrevivência, aos 5 anos, em países desenvolvidos atinge 90% enquanto permanece nos 66% na India e 40% na África do Sul.*

 

– O cancro de mama é a principal causa de morte, por cancro, em mulheres, globalmente. A redução da mortalidade pode ocorrer com diagnóstico em estadio precoce e acesso a tratamento multimodal.*

 

Em Portugal, com uma população feminina de 5 milhões, foram diagnosticados, em 2020, cerca de 7.000 novos casos de cancro da mama e 1.800 mulheres morreram com esta doença.

 

No IPO Lisboa, o cancro da mama é a patologia mais frequente da instituição, correspondendo a 16,6% de todos os doentes e com tendência crescente (aumento de 11,1% de novos casos tratados entre 2021-2022/ Relatório anual IPO Lisboa).

 

Por tudo isto se continua a relembrar o tema em outubro. Mas também se deveria lembrar em janeiro, abril, setembro, dezembro… É um tema que deverá estar sempre presente.

 

Neste outubro de 2023, será muito importante manter a consciência da importância desta patologia, com o doente no seu centro. Potenciar todo o equilíbrio necessário para que o conhecimento se expanda, os profissionais se mantenham empenhados na sua missão e os doentes possam sempre ter os melhores tratamentos, com todo o humanismo e dignidade.

 

Que a confiança viva aqui, agora e nos próximos 100 anos …

Catarina Rodrigues dos Santos
Coordenadora da Clínica Multidisciplinar da Mama