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09 de Agosto 2022

O papel dos IPO no sistema de saúde

O país e a sociedade mudaram mas a importância de ter hospitais especializados na área da oncologia permanece. A visão de Nuno Abecasis, diretor do Serviço de Cirurgia Geral.

Está hoje muito em voga a discussão sobre as virtualidades de um sistema de saúde em que os recursos públicos e privados possam de alguma forma ser integrados na prestação dos cuidados de saúde à população. Devemos reconhecer que a realidade em que este debate tem hoje lugar é completamente diferente do que acontecia há uns anos atrás, quando a prestação de cuidados pelo setor privado e social era totalmente residual em relação ao Serviço Nacional de Saúde público, criado e desenvolvido no pós 25 de Abril.

As diferenças resultam tanto do investimento maciço de grupos privados, com a construção de verdadeiras e modernas estruturas hospitalares, com todos os recursos necessários à prática de uma Medicina moderna, por vezes melhor equipadas do que os hospitais públicos, como do claro desinvestimento público nas suas estruturas de saúde, resultantes de sucessivas e prolongadas crises financeiras e culminadas pela pandemia de COVID-19, que tudo arrastou em termos de disponibilidades financeiras e utilização de recursos infraestruturais e humanos. Estamos, assim, a emergir numa realidade diferente, que é preciso conhecer, e à qual todos teremos de nos adaptar.

 

A importância, necessidade e vantagem da existência de instituições hospitalares especializadas na área da Oncologia é hoje consensual nos países com sistemas de saúde mais desenvolvidos, sendo que todos acabaram por os criar ao longo do último século.

 

Do mesmo modo, em Portugal, o setor privado reconheceu que esta é uma das áreas prioritárias de desenvolvimento, atendendo à epidemiologia presente e antecipável das doenças oncológicas, e investiu em infraestruturas e recursos humanos de modo a ter uma oferta concorrencial nesta área. Como todos sabemos, muitos destes recursos humanos, nos vários grupos profissionais, foram desviados dos quadros do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa).

«Não faltam razões para que se façam nos IPO os investimentos materiais e em recursos humanos que permitam que permaneçam como último recurso no tratamento das doenças oncológicas», diz o médico cirurgião Nuno Castela Abecasis, diretor do Serviço de Cirurgia Geral

Ao mesmo tempo, verificaram-se recentemente alterações importantes na estruturação assistencial de patologias que, pela sua raridade ou complexidade, beneficiam da concentração em unidades que tenham o necessário volume, a multidisciplinaridade e a expertise que assegurem os melhores resultados no tratamento daquelas doenças (oncológicas ou não). Surgiram assim redes nacionais e europeias de centros de referenciação para o tratamento de alguns cancros e antevê-se a criação de outras.

 

Mais uma vez, foram reconhecidos como centros de referência nacionais instituições públicas e privadas, embora com largo predomínio das primeiras e com exclusividade no que toca a centros de referência europeus. De salientar que, em Portugal, ao contrário de outros países da Europa, a taxa de concentração assistencial nas patologias para as quais foram criados centros de referência é muito alta e, nalgumas patologias oncológicas, como o cancro do esófago ou os sarcomas, é praticamente total.

 

A especificidade dos IPO

 

É, pois, forçoso repensar o posicionamento dos Institutos Portugueses de Oncologia (IPO) na malha assistencial nacional atual e prepararmo-nos para dar continuidade a uma presença quase centenária numa realidade nova e altamente concorrencial. Há várias razões para a subsistência de hospitais quaternários públicos na área da Oncologia e não só por razões de acesso a cuidados diferenciados da população que não pode recorrer a instituições privadas. Estas, sem exceção, concentram a sua oferta em tumores mais frequentes, de tratamento menos intensivo, com melhores resultados em termos de controlo da doença, menores sequelas do tratamento (carcinomas da mama, coloretal, endométrio, ovário, próstata, pâncreas, pulmão) e dirigem-se preferencialmente aos grupos sociais que servem.

 

Ficam de fora muitas situações cuja prevalência se associa a condições socio económicas mais desfavorecidas e toda a área da oncologia pesada, para a qual nenhuma tem os necessários recursos materiais e humanos. Estamos a falar de áreas como a oncologia da cabeça e pescoço, neurooncologia, carcinoma do esófago, tumores da via aérea, sarcomas, hematooncologia, tumores retroperitoneais e pélvicos e a área cada vez mais importante do tratamento das recidivas tumorais.

 

Não faltam, pois, razões para que se façam nos IPO os investimentos materiais, mas também humanos, que permitam que permaneçam como último recurso no tratamento das doenças oncológicas no falado sistema de saúde. Mas convém também que, internamente, haja um despertar de consciências e percebamos que vivemos uma realidade diferente e concorrencial, que é fundamental que não percamos valências, em qualidade e quantidade (uma instituição que queira funcionar em multidisciplinaridade está sempre dependente do elo mais fraco da cadeia assistencial), que a tutela entenda a especificidade do funcionamento deste tipo de instituições e não esbanje toda a sua atenção e recursos nos serviços de urgência, como tem feito até agora com os resultados que estão à vista.

 

Trabalhar no IPO Lisboa tem sido, ao longo de quase 40 anos, o maior privilégio da minha vida. Todos os dias me levanto com vontade de ser útil e oferecer aos nossos doentes o auxílio que necessitam e muitas vezes não encontraram noutros hospitais. Foi isso que recebi dos que me precederam. É isso que gostava de vos deixar.