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13 de Setembro 2022

IPO Lisboa: um hospital do SNS

Quisemos ouvir quem usufrui do SNS e quem o torna realidade. A palavra aos doentes e aos profissionais do IPO Lisboa, um hospital do Serviço Nacional de Saúde.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS), cujo dia se celebra a 15 de setembro, foi criado há 43 anos. Caracteriza-se por ser “universal”, garantindo a todos o acesso à saúde, independentemente do local de residência e da situação social e económica; “geral”, pois, da prevenção, ao diagnóstico, do tratamento à reabilitação, presta todo o tipo de cuidados; e “gratuito”, é financiado pelo Orçamento do Estado, através dos impostos dos contribuintes. Assim, na doença, independentemente da condição social e da capacidade financeira, todas as pessoas têm acesso aos tratamentos de que necessitam. Em Portugal, a universalidade, a equidade e a gratuitidade da saúde são uma responsabilidade solidária da sociedade.

O Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa), fundado há 99 anos, foi criado com as mesmas premissas e integra o SNS desde o seu início. Todos os que são acompanhados no IPO Lisboa têm acesso aos tratamentos, cuidados e apoios de que precisam durante todo o percurso da sua doença.

Para assinalar o 43.º aniversário do SNS fomos ouvir aqueles que contactam diretamente com o SNS. Os que dele usufruem – os doentes – e os que o tornam realidade todos os dias – os profissionais.

Por exemplo, Sérgio Estrela, diagnosticado há quase três com leucemia mieloide aguda. “Estou cá graças ao SNS”, relata, por escrito. “Soube da minha doença de uma forma dura. Tive uma rutura do baço e só a rápida intervenção dos Bombeiros da Póvoa de Santa Iria permitiu que fosse transportado para o Hospital de Vila Franca de Xira, onde fui operado de urgência e tive conhecimento do diagnóstico. A partir daí começou a mais dura das jornadas, das nossas vidas. Digo ‘nossas’ porque o cancro é uma doença que também afeta, e muito, a nossa família”.

“O cancro é uma doença que também afeta, e muito, a nossa família.”

Sérgio Estrela | Doente IPO Lisboa

Durante 230 dias de internamento, Sérgio Estrela passou pelo Serviço de Hematologia e pelas unidades de Transplante de Medula e de Cuidados Intensivos. Foi sujeito a vários tratamentos de quimioterapia, a muitas transfusões sanguíneas e fez um transplante de medula. “No IPO Lisboa, um sítio que como alguém disse uma vez, é um sítio com vida, fui tratado e muito bem tratado. Somos tratados com carinho, pelo nome e não pelo número. As pessoas aprendem a saber os teus gostos, a lidar com os teus humores. Em tempo de pandemia (de COVID-19) os profissionais reinventaram-se, sem nunca me faltar nada. Num período em que o mundo parou, tiveram de mudar procedimentos. Tudo passou a ser diferente menos a prioridade: nós os doentes”, conta.

Universal

Em 2021, o IPO Lisboa recebeu cerca de 12 mil novos utentes, realizou 305 mil consultas médicas, sete mil cirurgias, 109 transplantes de medula, mais de 90 mil exames de radiologia e nove mil exames de medicina nuclear. A estes números acrescem 72 mil tratamentos de radioterapia, 38 mil sessões de quimioterapia (só em hospital de dia), cerca de 15 mil transfusões de sangue e componentes sanguíneos e mais de três mil domicílios (doentes em cuidados paliativos).

 

Este ano, entre janeiro e junho, já se fizeram-se 157 mil consultas, incluindo mais de 29 mil primeiras consultas; três mil e oitocentas cirurgias e 56 transplantes.

 

No IPO Lisboa são tratados doentes de todo o país, mas o Instituto recebe maioritariamente pessoas da Grande Lisboa, Alentejo e Algarve, do Ribatejo e das regiões autónomas da Madeira e dos Açores. Também recebe doentes dos países africanos de língua oficial portuguesa, principalmente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Angola.

Leonor Pavia, mãe de uma criança em tratamento no Serviço de Pediatria, destaca todo o apoio que recebe no IPO Lisboa. Residentes no Alentejo, a uma distância que “limita imenso as deslocações” e obriga o filho “a ficar em tratamento de um dia para o outro”. Uma ajuda relevante para a economia familiar: “Tenho uma família numerosa, mais dois filhos, e o facto de, além dos tratamentos, proporcionarem todos os serviços gratuitamente ajuda-nos bastante”.

 

Domingas Pereira veio de muito mais longe, de Cabo Verde. Está em tratamento no IPO Lisboa ao abrigo dos acordos de cooperação celebrados entre o Estado português e o daquele país. Considera estar a ser bem tratada “com todo o carinho, com todo o respeito” pelas equipas que a acompanham.

Sara Carvalhal | Médica | Cirurgia Geral | IPO Lisboa

“Recebemos doentes de todo o lado, o que nos permite conhecer várias realidades e dar assistência a doentes oncológicos de todo o Sul e ilhas”, acrescenta a médica Sara Carvalhal, do Serviço de Cirurgia Geral. A especialista sublinha que o SNS permite prestar cuidados de saúde “sem olhar para mais nada a não ser o que é melhor para o doente” e destaca o processo formativo: “No IPO Lisboa tive acesso a uma formação de excelência que me permite prestar cuidados médicos de oncologia ao nível do que melhor se faz em termos internacionais”.

Geral

O IPO Lisboa disponibiliza cuidados integrados de saúde na área da oncologia e acompanha os doentes e as suas famílias em todas as fases da doença: prevenção, diagnóstico, tratamento, seguimento, reabilitação e cuidados paliativos. No IPO Lisboa trabalham mais de duas mil pessoas: médicos, enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, farmacêuticos, assistentes técnicos e operacionais, entre outras especialidades de saúde e áreas de suporte. Aqui são seguidos anualmente cerca de 60 mil doentes.

 

Alexandra Miranda é fisioterapeuta no Serviço de Medicina Física e Reabilitação. O seu trabalho foca-se na função motora e na prevenção de lesões que podem ter origem na doença ou serem consequência dos tratamentos oncológicos. “Tentamos recuperar todos os doentes, desde o diagnóstico, fazendo a prevenção de possíveis sequelas que possam surgir antes, durante ou após os tratamentos, até terem alta do Instituto. Focamo-nos na promoção da saúde e na melhoria da literacia em saúde dos doentes e dos seus cuidadores, de forma a que consigam estar mais capacitados, melhorar as suas funcionalidades e terem melhor qualidade de vida”.

Domingas Pereira | Doente IPO Lisboa

Susana Sá, doente, subscreve: “Ainda hoje, na consulta, o doutor explicou-me tudo muito bem. O que vou fazer, como é que a radioterapia vai funcionar. Fiquei esclarecida”, explica. Revelando estar a passar por um mau momento devido à doença, Susana assegura que “se não fosse o SNS não tinha feito a cirurgia de forma tão rápida. No IPO, o acompanhamento tem sido muito bom”.

 

“Eu faço parte do grupo de pessoas que precisam do SNS”, destaca António Joaquim Sá, outro doente, que elogia a boa articulação entre o IPO e os cuidados de saúde primários: “Tem sido tudo muito rápido, com muito profissionalismo de um lado e do outro. A minha médica de família continua a acompanhar-me nas consultas de rotina”.

Gratuito

“Trabalhamos afincadamente para garantir a acessibilidade dos medicamentos no tratamento do cancro aos nossos doentes.”

Ana Inácio | Farmacêutica IPO Lisboa

Enquanto hospital do SNS, o IPO Lisboa é financiado pelo Orçamento do Estado. Aqui, todos os meios complementares de diagnóstico e terapêutica, exames de seguimento e estadiamento, tratamentos médicos, cirúrgicos ou quaisquer outros, e também os medicamentos usados no tratamento do cancro são gratuitos para todos os doentes, independentemente do seu custo. A titulo de exemplo, no ano passado, o Serviço Farmacêutico preparou mais de 41.500 tratamentos de quimioterapia e de imunoterapia. Por mês, são consumidos medicamentos no valor de sete milhões de euros.

 

“Trabalhamos afincadamente para garantir a acessibilidade dos medicamentos usados para tratar ou controlar o cancro aos nossos doentes”, explica a farmacêutica hospitalar Ana Inácio. O Serviço Farmacêutico instituiu “os procedimentos necessários para garantir que os medicamentos que são precisos chegam aos doentes no tempo e nas quantidades certas, seja em internamento, hospital de dia ou em ambulatório”, acrescenta.

“Primeiro fui fazer uma pequena cirurgia num hospital particular e depois mandaram-me para o IPO, porque só aqui é que conseguia ser tratado”, revela Nuno Moreira, um doente que já foi bombeiro e que conhecia o IPO Lisboa “porque transportava os doentes até ao instituto”. Agora está “do outro lado da linha”: “Não me apercebia muito bem do serviço que fazem aqui. Para mim, de zero a dez, é onze”, frisa. No seu entender, a comunicação entre centros de saúde, hospitais e médicos de família melhorou bastante”. “Dizem mal do SNS, mas eu não me posso queixar, tem sido tudo a tempo e horas”, sublinha.

 

Paulo Saragoça, técnico superior de diagnóstico e terapêutica, do Serviço de Medicina Nuclear, destaca, por seu lado, o papel do SNS no tratamento das doenças de longa duração, como é o caso do cancro. “Muitos portugueses não teriam oportunidade de se tratar convenientemente caso não existisse esta instituição”, defende. O SNS, lembra, “dá a possibilidade a todos os portugueses de terem acesso a exames de diagnóstico e a tratamentos, alguns muito, muito caros, mas que lhes permitem manter ou recuperar a sua saúde”.

Paulo Saragoça | Técnico Superior de Diagnóstico e Terapêutica
Serviço de Medicina Nuclear | IPO Lisboa