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06 de Julho 2022

Farmácia hospitalar com recorde de tratamentos

Em 2021 o Serviço Farmacêutico do IPO Lisboa preparou 41.500 tratamentos de quimioterapia e imunoterapia, o número mais elevado dos últimos 12 anos.

A maioria dos doentes tratados no Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa) conhece, decerto, o Serviço Farmacêutico, pois é aqui que vai levantar a medicação para prosseguir os tratamentos em casa.

 

Mas, por detrás das portas de acesso reservado é feito todo um trabalho complexo e desconhecido da maioria dos utentes. É aqui que se preparam, por exemplo, os tratamentos para a quimioterapia ou se adaptam fórmulas para a pediatria ou dermatologia e outros serviços que não são comercializadas pela indústria farmacêutica (como por exemplo: pomadas, supositórios, colutórios, geles; colírios, outras formas farmacêuticas para aplicação tópica, entre outros).

 

Todos os medicamentos dispensados no Instituto passam por este serviço. Atualmente, a farmácia conta com cerca de 1200 artigos ativos. Ou seja, 1200 medicamentos e dispositivos médicos com ação terapêutica. Por mês, o consumo de fármacos no IPO Lisboa ronda os sete milhões de euros (cerca de 1,7 milhões por semana). Os mais caros destinam-se a tratamentos nos serviços de Pediatria e de Hematologia.

No ano passado, conta a farmacêutica Rute Varela, diretora do Serviço Farmacêutico, foram ali produzidos “cerca de 41.500 tratamentos de quimioterapia e imunoterapia, o que corresponde a mais de 80 mil medicamentos preparados”. A quantidade tem vindo a aumentar a uma média de mil novos tratamentos por ano, sendo que em 2021 se registou “o maior número dos últimos 12 anos”.

 

Em ambulatório, os atendimentos também estão a subir. Em 2021 foram 58.300, mais 54,6% do que os 37.700 realizados em 2013. Em média são atendidos 200 utentes por dia. No cumprimento da legislação em vigor, e por se tratar de terapêuticas prolongadas, os medicamentos são dispensados em quantidades mensais, exceto situações previamente autorizadas pelo Conselho de Administração.

 

No entanto, a dispensa dos medicamentos em ambulatório, para o Hospital de Dia e internamentos é o culminar de um processo complexo e em que nada pode falhar, de forma a que todos recebam o tratamento correto, na dose e frequência adequadas, assim como toda a informação pertinente, garantido o primado da segurança e qualidade.

Começa logo pela escolha dos fármacos a adquirir, processo que “tem associado uma elevada carga burocrática”, prossegue Rute Varela. Só no ano passado, o serviço analisou e elaborou pareceres para 680 processos de compra. Depois da escolha e da aquisição dos medicamentos, obrigatoriamente pela compra centralizada, os profissionais da farmácia estão encarregues da sua receção, armazenamento, preparação, distribuição e monitorização.

 

Para o internamento, a medicação é dispensada em doses diárias unitárias para cada doente (distribuição diária individual em dose unitária) e enviada para os respetivos serviços em carrinhos com uma gaveta para cada doente. Antes é feita a validação farmacêutica de todas as prescrições, o que compreende a análise da adequação do medicamento e da posologia, a avaliação das interações e das sobreposições com outras substâncias e a duração do tratamento.

 

No caso dos tratamentos de quimioterapia (fármacos antineoplásicos citotóxicos e outros) é necessária uma dupla verificação. “É um procedimento muito bem estabelecido e que requer uma quantidade de passos que não podem ser ultrapassados para garantir a qualidade e segurança do tratamento”, explica a diretora do serviço.

Todos os tratamentos de quimioterapia têm duas verificações por farmacêuticos. A primeira (validação clínica e galénica), antes de serem preparados pelos técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica (TSDT) da farmácia; a segunda, no final do circuito e que atesta a qualidade e segurança do medicamento preparado para uso humano. No decurso dos tratamentos realizam-se análises ao sangue para otimizar a terapêutica com a menor toxicidade possível. Se for necessário ajustar as dosagens, o médico que as prescreveu é avisado.

 

“A manipulação de medicamentos que exigem simultaneamente a esterilidade, como requisito de qualidade para o doente, e a adoção de medidas que garantam a segurança dos profissionais envolvidos” é uma das características da preparação de substâncias citotóxicas assinaladas por Humberto Gonçalves, farmacêutico coordenador da Unidade de Ambulatório e Farmacotecnia do Serviço Farmacêutico.

 

Entre os desafios mais importantes desta área, o profissional destaca: a preparação técnica especializada e a manutenção de uma equipa multidisciplinar “coordenada dia após dia” e o trabalho contínuo “para que as equipas mantenham as suas aptidões e especializações em níveis altos de desempenho”.

Inovação e investigação

 

Ainda no que diz respeito aos medicamentos citotóxicos, o IPO Lisboa foi pioneiro em Portugal na monitorização terapêutica do bussulfano. O medicamento é usado nos transplantes de medula, mas pode ser metabolizado de forma diferente de doente para doente. Em excesso pode ser fatal, em dose insuficiente compromete o resultado do transplante. Por isso, o Serviço Farmacêutico desenvolveu um procedimento que mede os níveis do medicamento no sangue, permitindo aos médicos ajustar a cada doente a dose certa desta substância.

 

A inovação terapêutica na área da quimio e da imunoterapia, revela, por seu lado, Humberto Gonçalves, “tem evoluído apresentando novos desafios nas técnicas de preparação. Ao farmacêutico hospitalar cabe a responsabilidade de avaliação dos requisitos necessários à sua preparação”. “Sempre que um destes medicamentos é usado pela primeira vez existe um intenso trabalho de análise prévia e que resulta na definição de normas de trabalho que permitem a preparação do medicamento respeitando as suas especificações e conjugando com as condições de que a instituição dispõe”, adianta, como acontece com os novos medicamentos na área da terapia avançada (ATMP’s).

 

Na área da investigação clínica, no final do ano passado, a farmácia participava em 41 ensaios clínicos ativos (13 destes novos) que contam com a participação do IPO Lisboa. Em 2013 tinham sido 10 novos ensaios num total de 27 ativos. “Nos ensaios clínicos somos responsáveis por todo o processo do circuito do medicamento experimental. Só que estes são medicamentos com características próprias, que têm visitas de monitorização, bem como alguns requisitos diferentes dos medicamentos normais”, esclarece Rute Varela.

Além do circuito dos ensaios clínicos há também circuitos específicos para dispensas das substâncias controladas e dos hemoderivados, de acordo com a legislação em vigor. Os profissionais da farmácia são também responsáveis pela preparação dos radiofármacos são utilizados na Medicina Nuclear, trabalhando fisicamente neste serviço.

 

É também na farmácia hospitalar que se transformam alguns medicamentos em fórmulas que não estão comercializadas pela indústria farmacêutica, como adaptar dosagens ou transformar fármacos sólidos em líquidos. “Adaptamos fórmulas farmacêuticas para pediatria ou para doentes que têm sonda nasogástrica”, diz a farmacêutica. Por solicitação da área clínica, a farmácia também desenvolve de raiz alguns medicamentos. Em média, uma a duas novas formulações por ano.

 

O serviço está representado nas comissões de Farmácia e Terapêutica, no Programa de Prevenção e Controlo Infeções e Resistências aos Antimicrobianos, na Gestão de Risco Clínico e na Equipa Multidisciplinar de Tratamento de Feridas.

 

Recurso a horas extraordinárias

 

No Serviço Farmacêutico trabalham 51 pessoas, entre assistentes operacionais, assistentes técnicos, TSDT e farmacêuticos. E se o número de tratamentos aumenta de ano para ano, o de profissionais tem sido mais ou menos constante.

 

“Estamos a preparar à volta de 160 tratamentos por dia entre internamentos e Hospital de Dia, o que é uma carga muito elevada para os recursos que temos e só tem sido possível graças ao esforço e ao empenho da equipa e com horas extraordinárias, cerca de 500 por mês. Isto para conseguirmos ter uns tempos de espera adequados” lamenta a responsável pelo serviço, que aguarda para breve mais contratações e que o serviço está em processo de reorganização para tornar a sua prestação ainda mais eficiente.

Rute Varela destaca o papel de todos os profissionais nesta engrenagem: “O farmacêutico valida toda a prescrição e depois o TSDT faz a preparação para dose unitária e dos citotóxicos. A receção é feita por um técnico, o armazenamento é feito por auxiliares com a supervisão do técnico ou do farmacêutico. Não esquecendo toda a carga de trabalho administrativo assegurado pelos assistentes técnicos. São todos muitos importantes”.

 

Mas não tem sido fácil reter profissionais, tal como está a acontecer em muitos hospitais e serviços do Serviço Nacional de Saúde. A falta de melhores condições de trabalho, a exaustão, e a inexistência de progressões na carreira criam “uma grande desmotivação”.

 

Porém, há os que optam por ficar. No seu caso, a opção pelo trabalho numa farmácia hospitalar tem a ver com a “evolução permanente da ciência” que permite “uma constante aprendizagem.

 

Na opinião de Humberto Gonçalves, uma das razões que levam os farmacêuticos a optarem pela área hospitalar tem a ver com o facto de “proporcionar a oportunidade da sua intervenção ser feita de forma integrada numa equipa de cuidados de saúde multidisciplinar”. Bem como, acrescenta, “porque a área hospitalar é ainda percecionada como a que proporciona uma intervenção técnica mais profunda e integrada de todos os conhecimentos teóricos adquiridos”.