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28 de Setembro 2023

Estar atento ao invisível. Setembro é o mês dos Cancros do Sangue

É uma data cuja missão é sensibilizar para os tumores no sangue e no sistema linfático. A 5 de setembro, assinalou-se o Dia do Mieloma Múltiplo, a 15 foi a vez do Dia Mundial do Linfoma e, no último dia 22, o Dia da Leucemia Mieloide Crónica. Pelo meio, ainda se assinalou (dia 16) mais um Dia Mundial do Dador de Medula Óssea, a homenagear o gesto altruísta e apelando a mais registos.

“Setembro foi o mês dedicado aos cancros do sangue. O mês da consciencialização e de alerta da população para os tumores hematológicos”, resume Maria Gomes da Silva, diretora do Serviço de Hematologia do IPO Lisboa. Objetivo: ajudar a desmistificar medos, lembrar os principais cancros do sangue, como se manifestam e as possibilidades de tratamento.

 

Os progressos nesta área vão de uma melhoria na compreensão das causas aos avanços nos medicamentos e terapêuticas.

 

O Serviço de Hematologia do IPO Lisboa é um centro de referência para o diagnóstico e tratamento de tumores hematológicos no país. Dos cerca de 1.200 novos doentes recebidos anualmente com suspeita de cancro do sangue, cerca de 500 apresentam linfomas, o sexto tumor mais frequente em Portugal.

 

Num quadro crescente de casos oncológicos, a investigação, os métodos de diagnóstico e a medicina de precisão, com tratamentos cada vez mais personalizados, também vão conhecendo avanços. Novos fármacos com menor toxicidade têm contribuído para o aumento da sobrevivência dos doentes, nalguns casos, com ganhos de décadas.

 

“O tratamento teve uma evolução impressionante em 20 anos”, sublinha a diretora. A maioria dos doentes continua a ser tratada com quimioterapia, pelo menos, em primeira linha, mas o recurso às terapêuticas dirigidas aumentou. Na área dos linfomas, o maior avanço expressa-se nas terapêuticas agnósticas, ou seja, as imunoterapias que dependem da ativação do sistema imunitário para a destruição do linfoma. Exemplo disso são as células CAR-T, células do próprio doente, geneticamente modificadas, que são reeducadas para voltarem ao doente com o objetivo de reconhecer e atacar a doença.

 

Apesar de o IPO Lisboa recorrer, desde 2019, às células CAR-T em adultos, em dezembro de 2022, utilizou, pela primeira vez em Portugal, esta terapia no tratamento em crianças. Esta terapia está indicada em casos de leucemia linfoblástica aguda B, mais concretamente em segundas recaídas, recaídas após transplante de medula ou em doença refratária a outros tratamentos.

. LINFOMA

É uma doença muito heterógena, sendo conhecidas dezenas de diferentes tipos de linfoma e variadas formas de apresentação. Os linfomas são tumores do sistema imunitário que afetam os linfócitos – subtipo de glóbulos brancos que circulam no sangue e vivem também nos nossos gânglios linfáticos e outros órgãos.

 

Podem dividir-se em dois grandes grupos: Linfomas de Hodgkin, essencialmente ganglionares, e Linfomas não-Hodgkin, nos quais a doença pode estar presente em quaisquer estruturas do organismo (do cérebro à pele, do baço ao pulmão). Também a Leucemia Linfática Crónica (LLC) se classifica como linfoma. Assim, se considerarmos todas estas doenças em conjunto, “teremos cerca de 2.500 a 3.000 novos casos por ano, em Portugal. Esta incidência é muito semelhante à de outros países ocidentais”, aponta a diretora da Hematologia. “A primeira etapa crítica é ter bom diagnóstico, coisa que o IPO Lisboa felizmente oferece, pois tem um serviço de Anatomia Patológica de excelência, o que permite depois, fazer uma boa escolha de tratamento”.

 

E quais os sintomas que requerem atenção? O mais frequente é o aumento dos gânglios linfáticos, que se podem palpar no pescoço, axilas e virilhas. Se os gânglios mais profundos estiverem aumentados, os sintomas podem ser de compressão dos órgãos que estão próximos, febre persistente, perda de peso consistente e suores noturnos abundantes.

 

“São sintomas gerais que alertam para qualquer coisa que não está bem. No entanto, a maioria das pessoas com gânglios aumentados não tem linfoma. É importante referir isto para não gerar preocupações desnecessárias”, salienta Maria Gomes da Silva.

 

Regra geral, os linfomas são mais frequentes em homens do que em mulheres e a incidência aumenta com a idade.

 

Em 2023, até início de setembro, foram identificados 459 casos de linfoma no Instituto, o que representa uma subida de 19%, face aos 386 no período homólogo de 2022.

 

 

. LEUCEMIAS

Existem quatro grupos principais, consoante a rapidez de evolução e o tipo de células implicado. As leucemias agudas, que evoluem em semanas ou meses, incluem a leucemia linfoblástica aguda e a leucemia mieloide aguda. Já as leucemias de evolução lenta incluem a leucemia mieloide crónica e a leucemia linfática crónica.

 

Albertina Nunes, médica do serviço de Hematologia, revela que, por ano, o Instituto recebe cerca de 50 a 60 novos doentes com leucemias agudas e que a leucemia crónica mais frequente é a leucemia linfática.

 

Esta última é também o tipo de leucemia mais frequente no ocidente, sendo a incidência maior a partir dos 60 anos e ligeiramente mais frequente no sexo masculino, segundo a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APL).

 

Regra geral, é um cancro do sangue de crescimento lento, no qual a medula óssea produz demasiados linfócitos. Os doentes são assintomáticos durante alguns anos, mas, com o tempo, as células cancerígenas propagam-se para outras partes do corpo, incluindo os gânglios linfáticos, o fígado e o baço.

. MIELOMA MÚLTIPLO
É uma proliferação maligna de um tipo de células que existe na medula óssea, os plasmócitos, o que tem como consequência a anemia e, eventualmente, diminuição dos glóbulos brancos e das plaquetas, havendo um maior risco de infeções.

 

É um cancro difícil de diagnosticar pela pouca especificidade dos seus sintomas: anemia, hipercalcemia (cálcio elevado), destruição óssea e insuficiência renal.

 

Mais frequente na faixa etária acima dos 65 anos de idade, pode surgir em pessoas muito mais jovens. No IPO Lisboa, são tratados cerca de 80 novos doentes com mieloma, todos os anos, por uma equipa multidisciplinar, indispensável na abordagem das doenças do sangue.

 

A Clínica do Mieloma do IPO Lisboa já tratou milhares de doentes desta que “é uma das patologias onde têm ocorrido mais progressos terapêuticos”, refere o hematologista Leal da Costa, diretor do Departamento de Hematologia e coordenador desta Clínica.

 

 

Dia Mundial do Dador de Medula Óssea
É uma forma de homenagear e reconhecer o gesto altruísta de todos os que contribuíram para o aumento da esperança de vida de muitos doentes portadores de patologias graves e, ao mesmo tempo, uma ocasião que ajuda a consciencializar para a importância da dádiva.

 

Segundo o Centro Nacional de Dadores de Células de Medula Óssea – CEDACE, estão atualmente inscritos 388.515 dadores em Portugal e, no decorrer deste ano, já foram ativados 630, ou seja, foram contactados para fazer doação de medula.

 

O IPO Lisboa é centro de colheita da zona Centro e Sul e recebe cerca de 30 a 40 pedidos por ano, solicitados pelo CEDACE, para colheita a dadores do registo segundo Maria João Gutierrez, médica na Unidade de Transplante de Medula (UTM).

Esta unidade foi a primeira a ser criada no país, em 1987. Especializada na colheita e transplantação de células da medula, a UTM recebe crianças e adultos para autotransplante – quando as células são colhidas do próprio doente – e transplante alogénico, com recurso a dadores saudáveis, familiares ou voluntários inscritos num banco de dadores.

 

No caso de medula óssea, a colheita de células para transplante é feita no Bloco Operatório, sob anestesia geral. Já a colheita de sangue periférico é realizada, regra geral, através de punção na sala de citaferese, no Hospital de Dia da UTM e do Serviço de Imunohemoterapia.

 

Maria João Gutierrez, médica da UTM, salienta ainda a necessidade de se rejuvenescer e robustecer o registo de dadores em Portugal. “Muitos dos dadores registados, quando são ativados, acabam por não estar disponíveis. É preciso haver uma atitude mais interventiva de divulgação e motivação, também dos mais jovens e saudáveis. Os portugueses são normalmente muito solidários, mas é uma solidariedade em ondas e que depois não se mantém ao longo dos anos…”

 

Está em discussão uma revisão de critérios de seleção de dadores a nível nacional e, segundo a especialista, a idade é um fator importante, pois convém que sejam o mais jovens possível, por razões biológicas de capacidade de produção celular.

 

Quem vier dar sangue ao IPO Lisboa e decidir ser dador de medula também o pode fazer.

 

Condições para ser dador de medula óssea:
• Ter entre 18 e 45 anos
• Ter no mínimo 50kg e 1.50m de altura
• Ser saudável
• Nunca ter recebido uma transfusão de sangue, desde 1980