Back

13 de Setembro 2022

“Ao receber uma criança recebemos toda a família”

Setembro é o mês de sensibilização para o cancro infantil. Conversámos com a médica Filomena Pereira sobre a doença e a pediatria do IPO Lisboa.

Ao Serviço de Pediatria do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa) chegam por ano, em média, 180 novos doentes e são tratadas em simultâneo cerca de 400 crianças. Estes números representam, aproximadamente, a metade do total nacional. Em Portugal, o cancro pediátrico é a primeira causa de morte por doença em crianças e adolescentes. Porém, 80% dos menores diagnosticados consegue sobreviver.

A médica Filomena Pereira, diretora do Serviço de Pediatria, explica que se considera que o cancro é pediátrico quando o doente tem menos de 18 anos. “Nas crianças as neoplasias são, na sua maioria, diferentes das que ocorrem no adulto, embora os adolescentes possam ter alguns tumores de tipo adulto. Por outro lado, alguns tumores mais frequentes no adulto ocorrem muito raramente nas crianças”, esclarece. A maior diferença, comparativamente aos tumores registados em pessoas adultas, encontra-se nos chamados tumores sólidos (que ocorrem nos tecidos).

 

A abordagem terapêutica também difere entre as crianças e os adultos, “quer pela maior resposta dos tumores pediátricos à quimioterapia, quer pelo facto de as crianças terem maior capacidade de receber tratamentos mais agressivos”.

 

Há, no entanto, “um grupo etário (adolescentes e jovens adultos) em que as duas realidades se cruzam e que devem ser abordados de forma diferente, quer em termos médicos quer nas condições das infraestruturas que os acolhem”, sublinha.

 

O mês de setembro foi escolhido internacionalmente como sendo o mês de sensibilização para o cancro infantil, efeméride que a especialista considera justificar-se por ainda ser necessária a divulgação do impacto desta doença. “É importante sensibilizar a população em geral e também o poder executivo”.

Filomena Pereira, diretora do Serviço de Pediatria do IPO Lisboa

“Seria importante que vários aspetos, desde a adequação de recursos humanos e infraestruturas, até à formação de estruturas de suporte à investigação, fossem considerados de forma transversal a todo o país”, defende.

 

As complexidades do cancro pediátrico são várias. Para além das particularidades das várias patologias, com necessidades específicas em diagnóstico e terapêutica, temos também de considerar o grupo etário da criança doente. “As necessidades deste grupo etário variam muito em todos os aspetos. Tratar um bebé é diferente de tratar uma criança em idade escolar e de tratar um adolescente”, prossegue Filomena Pereira.

 

Além disso, por terem uma esperança de vida maior, a terapêutica aplicada as crianças e jovens deve ter a máxima eficácia com o mínimo prejuízo possível dos órgãos a tratar. E no caso dos cancros infantis, “ao receber uma criança estamos a receber toda uma família, com todas as suas debilidades e carências, acentuadas pela doença de um filho”.

 

O contacto com o Serviço de Pediatria do IPO Lisboa é feito pelos profissionais dos outros hospitais e centros de saúde. “A referenciação de doentes é direta. Não temos lista de espera para receber crianças com cancro”, refere a responsável.

 

Após o diagnóstico, é o serviço que estabelece contacto com todas as entidades que envolvem a criança, de forma a partilhar o cuidado nas diversas vertentes (serviços de saúde, serviços sociais, escola) ao longo do tratamento e vivência da doença.

Melhoria do prognóstico dos tumores pediátricos

 

Ao contrário dos adultos, não é possível diagnosticar de forma precoce um cancro pediátrico. “A doença não decorre do envelhecimento ou degradação do tecido doente, nem da exposição aos cancerígenos identificados nos adultos” e, nas situações “muito raras de doença genética” apenas se pode prever a sua possibilidade, não a doença.

 

Apesar de as leucemias e os linfomas serem as patologias mais agressivas na população pediátrica (na rapidez da instalação da doença), os tumores ósseos e os tumores do sistema nervoso central são os mais difíceis de tratar.

 

“A sobrevivência tem melhorado sobretudo ao nível das leucemias e linfomas”. Um dos motivos deve-se à cooperação internacional na investigação, que tem vindo a permitir adaptar os protocolos terapêuticos, sendo possível obter melhores resultados com menor toxicidade.

 

Para o aumento dos prognósticos favoráveis também contribuem a melhoria dos cuidados de suporte, como a prevenção e o tratamento de infeções, bem como o suporte em Cuidados Intensivos, e a melhoria das técnicas de terapêutica local conservadora: “Nos retinoblastomas a sobrevivência já era próxima dos 90%, mas à custa da perda de visão. Neste momento, a sobrevivência mantém-se, mas com conservação da visão”.

 

Ao nível das sequelas, após o tratamento, a médica revela que além dos efeitos secundários orgânicos ou funcionais, “as alterações psicológicas, que têm sido equiparadas a stress pós-traumático, são as que mais decorrem do tratamento da doença oncológica”. “A vivência da doença e do tratamento e a postura dos pais perante essas crianças, durante e após a doença, condicionam alterações psicossociais que podem ter impacto na sua vida adulta. Um acompanhamento psicossocial ativo e presente desde o início da doença é importante na diminuição dessas sequelas”.

 

Após o tratamento, e sem quaisquer sinais físicos da doença, os sobreviventes continuam a ser acompanhados no IPO Lisboa, na chamada consulta dos DUROS (Doentes que Ultrapassaram a Realidade Oncológica com Sucesso). Esta consulta conta atualmente, com mil doentes em seguimento e tem duas finalidades: vigiar a saúde dos antigos doentes e identificar precocemente sequelas e recidivas. É também importante a elaboração de esquemas terapêuticos que possam minimizar efeitos secundários.

 

Apesar de nas leucemias existir já um grupo nacional, integrado a nível internacional, para o tratamento das linfoblásticas (as mais comuns), ainda não é possível a organização dos especialistas em oncologia pediátrica em grupos dedicados por patologia. Nos tumores do sistema nervoso central, o cuidado a estes doentes “está entregue a médicos com mais diferenciação”, avança Filomena Pereira. “No entanto, procura-se que, dentro da equipa, haja elementos com formação mais diferenciada em cada patologia. Assim, a equipa, como um todo, estará mais qualificada.”