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31 de Outubro 2023

Alimentação e cancro. Aposta na dieta mediterrânica e estilo de vida saudável

Maus hábitos alimentares são o terceiro principal fator de risco que mais contribui para a perda de anos de vida saudável da população portuguesa. Equilíbrio e variedade são as palavras-chave.

Cerca de um terço dos cancros podem ser prevenidos ao modificar hábitos alimentares e adequando comportamentos para um estilo de vida mais saudável, ou seja, não fumar, não consumir bebidas alcoólicas, praticar exercício físico e ter horas de sono adequadas. Além disso, uma alimentação adequada é essencial para que o doente oncológico se mantenha bem nutrido, hidratado e ajuda a ultrapassar efeitos secundários dos tratamentos.

 

“Ao nível das doenças crónicas não transmissíveis, como a obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares e também na prevenção de doença oncológica, a ciência já demonstrou que, alterando estes comportamentos, podemos reduzir em cerca de 1/3 o número de casos de cancro. O que é muito significativo”, confirma Eugénia Santos Silva, coordenadora da Unidade de Nutrição e Dietética do IPO Lisboa.

 

É recomendada, por isso, a dieta mediterrânica que privilegia o consumo de produtos vegetais, cereais integrais e fruta, utilização de azeite como gordura principal, consumo moderado de produtos láteos, baixo consumo de carnes vermelhas e de produtos açucarados.

 

Também é importante apostar na variedade, até dentro do mesmo grupo de alimentos. “Porque todos têm componentes benéficos e menos benéficos. Há uma ação sinérgica e eles complementam-se, daí a importância da diversidade.”

 

Sabe-se que a obesidade, por exemplo, aumenta o risco de até 13 tipos de cancro, mas há muitos fatores a considerar, como “a suscetibilidade genética – um fator determinante – porque somos todos diferentes e reagimos de forma diferente aos mesmos estímulos nutricionais”. Outro fator a considerar é a variabilidade da composição dos alimentos, pois “os que são produzidos em diferentes zonas geográficas possuem diferentes composições nutricionais, principalmente nas moléculas que têm atividade biológica, estando demonstrado que podem ter algum efeito preventivo ou mesmo terapêutico.”

 

E quanto ao açúcar e doces? Devem ser consumidos pontualmente e em situações especiais e, de preferência, após uma refeição equilibrada, não diariamente, evitando usar de forma isolada, por exemplo, no chá, café ou leite.

 

Segundo a especialista, as “células malignas têm uma taxa metabólica muito superior às saudáveis, multiplicando-se a uma maior velocidade e recrutando mais rapidamente substratos energéticos e de síntese. Mas, se não obtiverem açúcar, conseguem mobilizar outros nutrientes, porque têm a capacidade de alterar as vias metabólicas”.

Plano personalizado para doentes oncológicos
Os diferentes tratamentos têm um grande impacto no doente oncológico, tanto a nível físico como psicológico. E uma alimentação apropriada pode ajudar a manter a energia e o bem-estar, contribuir para uma maior tolerância aos efeitos secundários dos tratamentos e diminuir risco de infeções.

 

Aqui no IPO Lisboa, a Unidade de Nutrição e Dietética acompanha ativamente os doentes em sinergia com as especialidades médicas que interagem no tratamento, adequando os planos nutricionais, de forma personalizada, a cada caso.

 

Quando um doente chega ao Instituto para ser internado é feita uma avaliação do estado de nutrição, sendo analisada a sua capacidade de alimentação, mediante a situação clínica ou dos sintomas que possa apresentar. Depois é delineado um esquema nutricional de acordo com o plano global de tratamento. “Um doente em início de tratamento que entra por complicações da doença ou dos tratamentos é alvo de estratégias diferentes que articulamos com o resto da equipa de saúde que o acompanha”, explica a nutricionista Eugénia Santos Silva.

 

Já na alta, se for identificada a necessidade de seguir um plano nutricional no ambulatório, é feito o ‘ensino’, ou seja, o aconselhamento para orientação do doente: quais os alimentos a consumir e a evitar, como confecionar, quantas refeições diárias e que suplementos nutricionais, se necessários.

 

“Por exemplo, no serviço de Cirurgia Cabeça e Pescoço, o doente chega a alimentar-se pela via oral, faz uma cirurgia e sai com uma sonda de alimentação. Temos de ajudar a adaptar-se às novas circunstâncias. Por isso, quando chega à altura de ter alta, o doente recebe orientações do tipo de alimentação mais adequada e, se necessário, é ainda referenciado para seguimento em ambulatório.”

Mudança ajuda ao “bem-estar” de doente
Marina, de 64 anos, chegou ao IPO Lisboa em 2022 devido a um Adenocarcinoma do Cólon. O seu “problema de saúde ficou resolvido”, tendo as melhorias sido graduais.

 

“A consulta de nutrição foi importantíssima e esclarecedora. A alimentação começou a ser meticulosamente programada: horas, quantidade e qualidade de alimentos, o que contribuiu para o meu bem-estar”, sublinha, assumindo que, atualmente, a sua qualidade de vida equivale à que tinha antes de a doença ser detetada.

 

Uma alimentação adequada tem mais valias na função imunitária, na diminuição da taxa de complicações e na eficácia da resposta ao tratamento. É sempre a melhor opção também a nível de prevenção da doença e promoção da saúde.