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Opinião IPO

“O nosso hotel de cinco estrelas em Sete Rios”

Alice Vieira, Escritora

Sou, há largos anos, doente crónica do IPO de Lisboa. Um dia, há muitos anos, entrei para uma consulta de rotina com o ginecologista e saí de lá com guia de marcha para uma mastectomia, logo dali a poucos dias. Só a família (e evidentemente, o jornal onde trabalhava) soube. Pedi uma baixa de um mês, pus a minha vida em ordem e lá fui eu. Coisa complicada, muitas metástases espalhadas, um prognóstico pouco agradável e radioterapia que me fazia vomitar de manhã à noite. Mas sempre pensei que não me apetecia nada morrer naquela altura. A baixa, que era de um mês, reduzi-a para 15 dias e voltei ao trabalho. Muitas vezes tinha passado a manhã a vomitar e dizia «não, esta tarde não vou trabalhar», mas logo a sensatez em pessoa que era o meu marido dizia «vais, e vais já.» E, assim que eu chegava ao jornal, passava tudo. Então nunca falei disso, prezo muito a minha privacidade e sempre me pareceu terrível o espectáculo público da doença. E só o fiz sete anos depois de operada, e porque a minha querida Henriette de Almeida Lima me pediu que participasse num colóquio público sobre o tema (lembro-me que então recebi muitas chamadas de amigos a perguntarem ‘foste operada?’, e eu, ‘fui, há sete anos!’).

 

Foi por essa altura que também vieram a público os casos idênticos da Manuela Maria e da Simone de Oliveira. Então, não havia programa de televisão, rádio, ou revista que não nos chamasse às três. Nós já ríamos e eu dizia que éramos «as cancerosas de serviço.»

 

E pronto. E porque depois surgiram novos problemas, o IPO passou a ser um pouco a minha casa. Ou, como diz um amigo, igualmente frenquentador do local, «o nosso hotel de cinco estrelas em Sete Rios.»

 

Consultas, exames, análises, urgências, farmácia, pavilhões disto e daquilo… mexo-me bem pelo meio de tudo. É claro que sei as grandes, as enormes dificuldades que por lá existem.

Claro que sei o esforço que é pedido aos médicos e pessoal (que é sempre pouco para o trabalho que há) e as horas de trabalho que fazem para além do que é (do que seria…) razoável. Nunca me esqueço de um médico que um dia me tratou na urgência por volta das 3h00 da tarde e que estava ali desde manhã muito cedo e era o único.

 

Mas também sei que – com todos os problemas e as esperas e o tempo que às vezes se passa naqueles corredores – é muito raro encontrar alguém que nos trate com pouca paciência. Essa relação de proximidade, de não sermos apenas mais um número a ser chamado para ser despachado, é o que me faz considerar o IPO como um lugar diferente. Pois, se calhar preferia não o frequentar… É claro que preferia. Mas a vida vai-nos pregando partidas que temos de enfrentar e é preciso andar para a frente.

 

E é bom encontrar um sorriso na cara da Soraia, uma das funcionárias que me levam de um pavilhão para outro; e é bom ouvir ao telefone «daqui é o Artur», quando nos ligam porque é preciso remarcar um ou outro exame…

São pessoas. Pessoas como nós

“Pessoas que nos embalam”

João Silva, Jornalista

“De todas as forças que contribuem para um mundo melhor, nenhuma é tão indispensável e tão poderosa quanto a esperança. Sem esperança, os homens são apenas meio vivos. Com esperança, eles pensam e sonham e trabalham.”

Pediram-me que escrevesse sobre o IPO de Lisboa e, quase de imediato, ocorreu-me esta frase do norte-americano Charles Sawyer, pois resume o que senti desde o primeiro momento em que entrei no IPO para tratar a minha doença: esperança, sonho, trabalho e progresso. Eu era um jovem assustado pela dúvida, pai de um menino, o João, com pouco mais de um ano, e sentia medo do cancro e, até, do hospital que era suposto tratar-me. Mas a verdade é que esse monstro que é o medo e que se juntou, na altura do diagnóstico, com outro, o cancro, foi diminuindo de tamanho graças às pessoas que ali trabalham e que me embalaram, desde esse primeiro momento, numa onda de positivismo, progressão e esperança, pilares de uma cultura que está enraizada nos médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, auxiliares, administrativos, enfim, em todos que trabalham no IPO.

 

Não há uma fórmula mágica para vencer o cancro, claro que não, mas acredito que, além dos químicos, foi também essa cultura que me ajudou a viver uma vida o mais normal possível enquanto estava doente e também, por fim, a vencer o cancro. E fê-lo não uma, não duas, mas por três vezes.

Doença inicial e duas recidivas graves fizeram com que fosse sujeito a longos e complicados ciclos de quimioterapia, além de dois autotransplantes de medula óssea. E foi durante esses autotransplantes, num pequeno “aquário” na Unidade de Transplante de Medula do IPO, que escrevi um diário que acabou por resultar num livro, cujo título é “O sofrimento pode esperar”, frase que aprendi na minha vivência no IPO, e ao qual a editora que publicou o diário entendeu acrescentar um subtítulo, “Diário de três vitórias sobre o cancro”, subtítulo esse que aceitei sem reservas por entender que se refere menos a mim e mais aos verdadeiros heróis desta história: a minha família, os meus amigos e, principalmente, todos os colaboradores do IPO que, com o seu trabalho, dedicação, competência e carinho contribuíram, e contribuem ainda hoje, sempre que vou a uma consulta de rotina, para que eu vivesse para ver o meu filho crescer e para que pudesse, hoje, render-lhes, uma justíssima homenagem com estas humildes palavras.

 

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