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Para cuidar da pessoa com ostomia 11 09 2018
A consulta de estomaterapia do IPO Lisboa nasceu há dez anos para prestar cuidados de enfermagem na reabilitação de pessoas com ostomia e suas famílias, facilitando a adaptação a uma realidade nova e por vezes penosa. Para celebrar, realiza-se um convívio com os doentes e um workshop para profissionais de saúde.
Viver com uma ostomia (orifício criado cirurgicamente no corpo para alimentação, respiração e eliminação) ou apenas imaginar essa possibilidade é para muitos doentes uma situação complexa e geradora de emoções negativas que interferem com o seu dia a dia. Para ajudar a lidar com esta nova realidade e na adaptação pessoal, familiar e social, há 10 anos o Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa) criou a consulta de estomaterapia, onde enfermeiros treinados trabalham com os doentes e as famílias durante a vivência deste processo.
As ostomias são uma realidade muito presente no dia-a-dia da população nacional e do IPO, onde estão em acompanhamento mais de 400 doentes, com diferentes tipos de tumores. Durante esta década, foram mais de dois mil os doentes que passaram por esta consulta.
Cláudia Silva, enfermeira coordenadora da consulta de estomaterapia, explica que «a intervenção dos enfermeiros e o início da assistência começa ainda no pré-operatório, nas consultas de primeira vez, que são muito importantes para o doente integrar a ideia de ‘viver com uma ostomia’.» Nesta fase, as enfermeiras identificam o impacto que a ostomia poderá ter na individualidade de cada pessoa e é elaborando um plano personalizado de reabilitação e intervenção.
«Queremos que a presença da ostomia condicione o mínimo possível as atividades e os hábitos de vida dos doentes. Para tal, temos de conhecer e desenvolver, com cada um, estratégias que facilitem o processo de adaptação e reabilitação», diz Cláudia Silva.
Fomentar o autocuidado, treinar estratégias de adaptação a novos hábitos de vida e facilitar o processo de transição para a autonomia, são as principais áreas de atuação. «Os enfermeiros que cuidam de pessoas com ostomia trabalham para que o processo de reabilitação e a reintegração social e profissional se faça com a maior brevidade possível», acrescenta Sandra Martins, que também é enfermeira na consulta.
«Sem este apoio teria sido muito complicado»
Carla Eugénio, 39 anos, entrou no IPO pela primeira vez em 2015 e lembra que aqueles tempos não foram nada fáceis. «Quando me disseram que teria de usar um ‘saco’ recusei, para mim nada daquilo fazia sentido. Depois de ter feito quimio e radioterapia, seguia-se a cirurgia e não era aquele cenário que eu queria para mim. Mas na consulta aprendi a fazer tudo sem stress e acima de tudo com boa disposição. A enfermeira foi uma querida e foi-me sempre explicando que era a solução ideal para o meu problema e até me colocou em contato com outra doente na mesma situação. E aí comecei a encarar a realidade de outra forma. Sem este apoio teria sido muito mais complicado».
Estes conselhos não são apenas para os doentes, diz Nuno Tavares, marido de Carla Eugénio. «Os familiares também têm um papel importante. Ver os ensinamentos da enfermeira, para poder ajudar a fazer em casa, é fundamental. Sentimo-nos mais confiantes para ajudar. Às vezes ela queixa-se e eu digo para não se preocupar que está tudo bem, que aqueles pequenos incómodos são normais. Mas ela só descansa quando ouve da boca da enfermeira. Nesta consulta, o trabalho da parte emocional é fundamental.»
Os enfermeiros da consulta de estomaterapia trabalham em equipas multiprofissionais, o que permite sempre que necessário mobilizar rapidamente recursos e apoios médicos, de nutrição, psicologia e apoio social. Tudo com o objetivo de prevenir eventuais complicações que possam surgir durante a trajetória do tratamento e da doença.
Para a enfermeira Cláudia Silva, a maior conquista destes dez anos de consulta foi a sensibilização e o envolvimento dos profissionais da instituição para as necessidades específicas desta população: «Sente-se o foco na pessoa com ostomia e o reconhecimento da nossa intervenção, através da referenciação de doentes antes da cirurgia, dos pedidos de consultoria dos serviços de internamento e no esforço institucional para melhorar a área assistencial, através da concessão de mais horas de enfermagem à consulta de estomaterapia e à criação de um espaço físico adaptado às necessidades da pessoa com ostomia, para partilha, ensino, treino de competências e tratamento de complicações».
«Sempre disponíveis para nos ajudar»
José Santos começou a ser acompanhado na consulta de estomaterapia em março de 2018, antes de ter sido operado. «Mostraram-me todos os cenários possíveis que poderiam vir fazer parte do meu dia a dia após a cirurgia. Acabou por se concretizar o pior, tenho de usar o ‘saco’. Mas, ainda no internamento deram-me todo o apoio e todos os ensinamentos para conseguir lidar com esta nova realidade. Mostraram-me todos os modelos de ‘sacos’ disponíveis, para ver com qual me adaptava melhor». Agora José vem à consulta mensalmente, mas «as enfermeiras estão sempre disponíveis para nos ajudar, prontas a esclarecer todas as nossas dúvidas, seja presencialmente, seja por telefone», afirma.
Ao longo destes dez anos, a consulta de estomaterapia do IPO Lisboa tornou-se referência a nível nacional. Os seus enfermeiros dão formação a enfermeiros de outras instituições e integram grupos de trabalho da Direção Geral de Saúde, Infarmed, Ordem dos Enfermeiros e outros, contribuindo com a sua experiência para construção de normas clínicas e para a regulamentação do acesso das pessoas com ostomia a cuidados avançados em estomaterapia e a dispositivos médicos essenciais para o autocuidado, que são comparticipados na totalidade pelo Serviço Nacional de Saúde.
Em 2017, a Direção Geral da Saúde definiu normas sobre os cuidados a prestar às pessoas com ostomia, incluindo o acompanhamento de enfermagem em estomaterapia nas fases pré e pós cirúrgica, o que é fundamental para a capacitação das pessoas que têm de passar por este processo. E a este propósito a enfermeira Sandra Martins relembra que «saber tratar-se a si próprio e ter um cuidador igualmente competente é critério obrigatório para a alta hospitalar. Quem não tiver adquirido estas competências deve ser encaminhado para uma consulta de estomaterapia.»
CONVÍVIO COM DOENTES
Para assinalar o 10º aniversário da consulta de estomaterapia, as enfermeiras da consulta estão a organizar um convívio, com piquenique, com doentes e famílias. Será no próximo dia 29 de setembro, a partir das 11h00, no Parque Bem Saúde, em Lisboa, e conta com o apoio da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, da Pastelaria Califa e dos Pastéis de Belém. Doentes, família e profissionais do IPO Lisboa estão convidados a juntar-se à festa. Basta que tragam uma «iguaria» para partilharem. Animação não vai faltar, com muitas surpresas e as atuações do músico Pedro Vicente e do grupo Amigos da Dança.
WORKSHOP PARA PROFISSIONAIS
Também no âmbito dos 10 anos da consulta de estomaterapia, terá lugar no dia 28 de setembro, no anfiteatro do IPO Lisboa, um workshop. «Gestão de ostomias – internamento e preparação para a alta» é o tema desta formação destinada aos enfermeiros dos vários serviços de internamento. Capacitar estes profissionais para gerir as situações de ostomia no dia a dia, nomeadamente a preparação dos doentes para a alta, são alguns dos objetivos deste workshop, que ainda contempla a apresentação de casos clínicos.
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Área Clínica
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Área Logística
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Área Ensino e Investigação
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